PERSPECTIVA DO KIERAN
Eu mal me lembrava do caminho para casa, apenas do ronco constante do motor, do gosto amargo da culpa e do desconforto na minha boca.
Quando cheguei, fiquei sentado no carro na entrada da garagem com o motor desligado, mergulhado no silêncio e no olhar julgador da lua, com as mãos agarradas ao volante como se fosse a única coisa me mantendo no chão.
Meu telefone tocou.
Gavin.
Com o peito apertado, olhei para a tela por um segundo e atendi.
"Fala."
"Você precisa ouvir isso," Gavin disse sem rodeios. Sua voz estava cortante, mas cautelosa. "Eu acessei o servidor dos arquivos das câmeras de segurança do hotel da Caçada da Lua de Sangue, como você pediu."
Meu aperto no volante ficou mais firme. "E aí?"
"Temos imagens," ele disse. "Câmeras do corredor, do saguão, do elevador... até mesmo as máquinas de venda automática tinham câmeras de segurança. Mas…"
"Mas o quê?"
"Há cerca de três meses, alguém fez um pedido formal para apagar gravações específicas da noite da Caçada da Lua de Sangue."
Segurei o celular com mais força. "O quê? Você tá me dizendo que alguém apagou os arquivos?"
"Alguém tentou," ele disse. "Mas a questão é que o sistema não apaga tudo completamente. Ele sinaliza tentativas de exclusão e, se o pedido não for totalmente autorizado ou concluído... fragmentos são armazenados."
Um arrepio subiu pela minha espinha. "Sabemos quem fez o pedido?"
"É o seguinte, Alfa. Foi passado por um ID proxy com autorização de nível Admin. Mas sem nome. Sem rastros."
"Caramba." Passei a mão pelos cabelos.
"Ainda tô investigando," disse Gavin. "Mas é claro que alguém queria esconder algo sobre o que aconteceu naquela noite."
Minha mente já estava rodando. Alguém, com acesso e conhecidos, havia encoberto os detalhes daquela noite. Ou tentado encobertar.
A lógica dizia que poderia haver outras razões para as imagens terem sido deletadas, mas no fundo eu sabia que tinha a ver com o que aconteceu entre a Sera e eu.
Mas por quê?
Quem?
Meu coração batia forte. Eu precisava de respostas.
O Ashar não me daria.
O Celeste não me daria.
A pesquisa de Gavin parecia ter chegado a um beco sem saída.
Havia apenas mais uma pessoa em quem eu podia pensar. Aquela que começou tudo isso.
Maya.
***
Eu estava batendo na porta do Ethan quinze minutos depois.
Ele me atendeu sem camisa, descalço e irritado, esfregando o sono dos olhos. "Kieran?"
Não perdi tempo com conversa fiada. "A Maya tá aqui?"
Ethan levantou uma sobrancelha. "Não. Ela tá com a Sera."
Eu xinguei. "Preciso da pedra da verdade dela."
A expressão dele mudou de leve curiosidade para cautela. "Por quê?"
"Você sabe o porquê, não é? Você ouviu tudo, não ouviu? Preciso de mais respostas."
Ethan me olhou por um longo momento e os seus olhos gradualmente ficaram mais atentos. Então, ele suspirou. "É melhor você entrar."
Ele deu um passo para trás e me deixou entrar, fechando a porta atrás de mim com outro suspiro. A casa dele estava silenciosa e tinha com um leve aroma de açafrão e eucalipto no ar, misturado com o cheiro do Ethan.
Eu o segui até a cozinha, onde ele se serviu um copo de água antes de falar.
"Cadê a Celeste?"
Eu travei os dentes. "No hospital."
Seus olhos se arregalaram. "O quê?"
Eu olhei fixamente para o copo de vidro. "Tentei interrogá-la em busca de mais respostas e ela... desmaiou. Aparentemente, o estresse foi demais pra loba fraca dela."
"Pelo amor dos Deuses, Kieran."
"Ela tá bem agora," eu disse com esforço. "Você pode ir vê-la amanhã. Não vim aqui pra ser repreendido, Ethan."

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