Vitória ergueu a sobrancelha. Achou aquela frase um pouco estranha, mas não disse nada.
— Obrigado.
Pedro foi para o banco de trás, deixando o carona para Fernando Pereira.
Com seu quase um metro e noventa, ele ficou visivelmente encolhido no carro pequeno de Vitória. Ela pigarreou, constrangida.
— O ajuste do banco fica ali embaixo.
— Certo.
Fernando regulou o assento, mas o espaço do carro em si era pequeno. Por mais que tentasse, o espaço para as suas longas pernas continuava apertado.
Vitória desviou o olhar rapidamente.
— Vai ter que aguentar um pouquinho. Onde você mora? Eu te deixo primeiro.
Fernando apenas murmurou em concordância, mas não passou o endereço.
Vitória franziu a testa e ia insistir, quando Pedro falou atropelando:
— Pode me deixar primeiro, Dra. Vitória, por favor. Preciso voltar o mais rápido possível pra passar a situação pro meu tio. Eu moro na Vila Nova Esperança...
Vitória concordou com a cabeça e deu a partida.
— Pode me chamar só de Vitória quando estivermos fora do trabalho.
Pedro abriu um sorriso e concordou na hora.
— Vocês já devem estar sabendo do resultado do DNA, não é?
A pergunta de Vitória foi direcionada a Fernando.
O caso dos estupros seguidos de assassinato havia causado um alvoroço imenso em Valedoura. Isador Vieira era a quarta vítima encontrada naquele ano.
Além da anomalia no DNA, a janela de tempo da morte também quebrava todo o padrão dos casos anteriores.
O Assassino em Série A claramente planejava seus crimes. As três primeiras vítimas foram mortas com intervalos exatos de dois meses. O ciclo inteiro já durava seis meses.
No entanto, o assassinato de Isador Vieira aconteceu a menos de uma semana do crime contra a terceira vítima.
— Sim. — Fernando assentiu. Seu rosto de perfil sob a luz dos postes carregava uma rigidez severa.
— O fato de termos encontrado um sêmen que não é do Suspeito A indica duas possibilidades: ou os detalhes dos crimes vazaram e surgiu um imitador, ou o Suspeito A começou a sentir a pressão da polícia e arranjou um bode expiatório para desviar a nossa atenção.
Vitória analisava o caso friamente, sem desfazer a ruga de preocupação na testa.
Pedro soltou um suspiro de admiração.
— Não é à toa que dizem que não há caso que a Dra. Vitória não resolva. Pelo visto você não é só boa na autópsia, também entende muito de investigação.
Antes que Vitória pudesse responder, Fernando lançou um olhar cortante para o retrovisor.
Ela estava curiosa, mas, como mal se conheciam, sentiu que não tinha o direito de continuar interrogando-o.
Logo chegaram à casa de Pedro. Depois que ele desceu, o carro ficou em um silêncio absoluto, habitado apenas por Vitória e Fernando.
— Capitão, onde você...
— Eu não sou o seu capitão.
Vitória congelou. Ela virou o rosto por instinto e deu de cara com a beleza estonteante do rosto de Fernando Pereira.
— Pode me chamar pelo meu nome.
Pelo nome?
Vitória sentiu o clima pesar e hesitou.
Ela não achava que eles tinham intimidade para isso.
Além do mais, a aura de Fernando era tão fria e inacessível que ela não conseguia sequer imaginar como seria chamá-lo apenas de Fernando no meio de todo mundo.
— Cof! Então eu te chamo de Sr. Pereira.
Vitória voltou a focar na estrada e, lembrando de um detalhe, deu um pequeno sorriso.
— Falando nisso, você tem o mesmo sobrenome de um senhor que eu conheço.

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