O galpão cheirava a óleo queimado, mofo e abandono. A única luz vinha de uma lanterna de acampamento posicionada no chão de concreto sujo, lançando sombras longas e dançantes nas paredes cobertas de pichações. No centro de um círculo de luz pálida, sentada em uma caixa de madeira vazia, estava Luna.
Ela tinha sete anos. Cabelos castanhos escuros, longos e um pouco embaraçados após a correria, caíam sobre os ombros de sua jaqueta rosa. Seus olhos, grandes e de um verde impressionantemente familiar ao de Matheus, não choravam. Estavam simplesmente abertos, fixos em Rafael com uma curiosidade silenciosa e assustada. Ela não gritava, não se debatia. Mantinha um ursinho de pelúcia desgastado apertado contra o peito, como um talismã.
Rafael a observava de alguns metros de distância, apoiado contra uma velha bancada de trabalho enferrujada. Ele não via uma vítima. Na paisagem distorcida de sua mente, apodrecida pela humilhação, pela queda e pelo ódio, ele via um ativo. Um bem de troca. Justiça poética.
— Você não precisa ter medo — ele disse, sua voz soando estranhamente suave no espaço vazio. — Está tudo bem. Só preciso que seu pai entenda uma coisa. Depois, você volta pra sua mãe.
Luna não respondeu. Apenas apertou o ursinho com mais força.
Rafael sorriu para ela, um sorriso que não alcançava seus olhos, que estavam febris, brilhando com a febre da vingança. Em sua lógica doentia, ele não era um sequestrador. Era um rebalanceador do universo. Matheus tirara tudo dele: sua posição, seu respeito, seu futuro. Então, era justo que ele tomasse o que Matheus mais amava. Era uma equação simples. Pura. Um pai por um pai.
Ele pegou o celular — um queimador, comprado com dinheiro vivo em um bairro distante. Ligou a câmera, apoiou o aparelho em uma pilha de livros velhos, ajustou o ângulo. A lanterna iluminou seu rosto, que parecia mais velho e mais magro do que há apenas alguns dias. As olheiras eram profundas, mas seus olhos arderiam com uma convicção fanática.
Pressionou gravar.
A imagem tremulou um pouco, então se estabilizou. Rafael encarou a lente.
— Matheus — ele começou, sua voz saindo em um sussurro rouco, teatral. — Você deve estar procurando. Deve estar se perguntando o porquê.
Ele fez uma pausa, deixando o suspense pairar no ar silencioso do galpão.
— Você me tirou tudo. Minha carreira. Meu nome. Minha reputação. Minha família. — A última palavra saiu com um espasmo de dor genuína, rapidamente sufocado pela raiva. — Você achou que podia brincar de Deus, não é? Achou que um cachorro de guarda podia decidir quem vive e quem morre.
Ele sorriu para a câmera, um sorriso de dentes à mostra, feio.
— Bem-vindo ao clube, cachorro. Agora eu tenho algo seu. Algo que você realmente ama. Algo puro, ao contrário de você.
Ele moveu a câmera lentamente, sem cortar a gravação, até que o foco encontrou Luna, ainda sentada na caixa, iluminada como uma pequena estátua de medo resignado. Ela piscou contra a luz, mas não fez um som.
— Agora, aqui está o nosso novo acordo — Rafael continuou, voltando a lente para si. Sua voz ficou mais dura, mais impessoal, como um cirurgião explicando um procedimento. — Você vai fazer um vídeo. Você vai confessar. Tudo. Que você forjou todos aqueles documentos contra mim por ciúmes, porque eu me envolvi com a Carla. Que você é um segurança desequilibrado, obcecado, que usa os recursos dos Moretti para acertar contas pessoais. Você vai se destruir publicamente. Sua palavra contra a sua reputação. E aí… aí você leva sua filha de volta. Sã e salva.
Ele inclinou a cabeça, como se ponderasse a própria generosidade.
— Um pai por um pai. Justo, não é? Você me destruiu. Agora, para salvá-la, você terá que se destruir. É a única moeda que aceito.
Ele fez outra pausa, seus olhos brilhando com triunfo antecipado.
— Você tem uma hora. O vídeo seu, confessando, precisa estar em todas as redes, em todos os blogs que você usou contra mim, antes do amanhecer. Se não estiver… ou se eu ver um único policial se aproximando… a menina aprende o que acontece com filhos de cães raivosos.
Com um último olhar penetrante para a câmera, ele encerrou a gravação.

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