Um mês se passou desde a noite no galpão. A mansão Moretti não era mais a mesma. O fantasma de Nicolau parecia finalmente ter sido exorcizado, não por exorcismo, mas por ocupação. A energia era diferente, menos solene, mais… viva. Mais barulhenta.
O barulho vinha principalmente de uma fonte: Luna. A menina de sete anos, com seus olhos verdes herdados do pai e uma resiliência surpreendente, estava por toda parte. Seus passos leves ecoavam nos corredores de mármore, seu riso — um som ainda raro, mas cada vez mais frequente — enchia os espaços que antes guardavam apenas silêncios pesados.
Matheus, agora, não era mais apenas o segurança que morava em um pequeno apartamento no centro da cidade dormia em um quarto funcional anexo a casa. Ele se mudara para uma suíte no andar principal, uma que tinha vista para os jardins onde Luna gostava de correr. Era um ato simbólico e prático. Ele estava presente. E Carla estava com ele.
Era estranho. Desajeitado. Uma tríade improvisada: o pai violento e amoroso, a mulher que ainda aprendia as regras daquela guerra particular, e a filha que carregava as marcas invisíveis de um sequestro. Mas era real. Não havia contrato, apenas o compromisso diário de tentar.
Carla passava os dias entre seu trabalho remoto — que agora incluía consultorias de segurança cibernética para a nova empresa de Ian — e Luna. Ela a ajudava com a lição de casa, a ensinava a fazer biscoitos (que sempre queimavam), a lia histórias na hora de dormir. Matheus observava, de longe ou de perto, sua expressão sempre uma mistura de admiração, medo e um amor tão profundo que às vezes parecia sufocá-lo.
A tensão, no entanto, tinha um nome: Valentina.
A ex-mulher de Matheus vivia na ala leste, um espectro elegante e quebrado. Ela amava Luna ferozmente, mas seus próprios demônios — a culpa por não tê-la protegido, o trauma do sequestro, a história tóxica com Matheus — a consumiam. Ela estava se afundando, e Luna, com a percepção aguçada das crianças, sentia.
Foi numa tarde chuvosa que Valentina pediu para falar com Matheus e Carla. Encontraram-na na biblioteca, parecendo ainda mais frágil envolta em um casaquinho, mesmo dentro de casa.
— Preciso de ajuda — ela começou, a voz trêmula, mas clara. Não olhava para Matheus, fixava os olhos em Carla, como se buscasse compreensão em outra mulher. — Eu… eu não estou bem. Não estou sendo a mãe que a Luna precisa. Eu a vejo e só consigo ver aquele galpão, o medo nos olhos dela… e eu estava tão longe. Eu falhei.
Matheus ficou em silêncio, seus punhos se cerrando e relaxando no colo.
— Tem uma clínica — Valentina continuou, engolindo em seco. — Na Suíça. Especializada em trauma… em pessoas como eu. Tratamento de longa duração. Eu preciso ir. Mas a Luna… — Sua voz quebrou. — A Luna não pode ir comigo. Ela precisa de normalidade. De estabilidade. De… — Seus olhos finalmente se encontraram com os de Matheus, e neles havia um desespero e uma entrega dolorosa. — De você. Dos dois.
A proposta pairou no ar, pesada. Era um ato de amor genuíno, sim, mas também de um desespero profundo. Valentina estava abdicando, temporariamente, talvez permanentemente, do papel mais importante de sua vida para salvá-lo — e para salvar a filha.
Matheus respirou fundo. Olhou para Carla. A pergunta não foi verbalizada, mas estava em seus olhos: Você aguenta? Você quer isso?
Carla sentiu um nó na garganta. Aquela não era a vida que ela imaginara. Era mais complexa, mais assustadora, mais cheia de armadilhas emocionais. Mas quando ela pensou em Luna, na pequena mão que se agarrava à dela durante os pesadelos, na confiança que a menina, aos poucos, depositava nela… a resposta veio clara.
Ela acenou com a cabeça, um único e firme movimento.
— Sim — Matheus disse, sua voz rouca. — Ela fica conosco.
O alívio em Valentina foi tão intenso que ela desabou em lágrimas silenciosas. Era um acordo. Uma transição dolorosa, mas necessária.
Os dias que se seguiram foram uma montanha-russa. A partida de Valentina foi discreta, mas Luna chorou por três noites seguidas. Os pesadelos voltaram com força. Gritos no meio da noite, suor frio, o urso de pelúcia esmagado contra o rosto.
Carla, nessas noites, era a primeira a chegar ao quarto. Ela se sentava na beira da cama, cantarolando baixinho, até os tremores de Luna cessarem. Matheus ficava à porta, uma sombra protetora e impotente, aprendendo que às vezes o maior ato de força era ficar parado e deixar outra pessoa cuidar.
Carla se sentia insegura. Será que estava fazendo certo? Será que Luna a via como uma intrusa? Matheus, por sua vez, estava aprendendo a ser pai presente, não só um protetor à distância. Ele ajudava com o banho, lia histórias com vozes esquisitas que faziam Luna rir, tentava explicar por que a mamãe tinha que ir embora por um tempo. Era desengonçado, mas era tentativa pura.
Ian e Olívia eram a base. Olívia, com sua própria gravidez começando a mostrar, tornara-se uma tia-avó protetora e prática. Trazia livros infantis, sugeria psicólogas, garantia a Carla que ela estava fazendo um trabalho incrível. Ian, por sua vez, garantiu que Matheus tivesse flexibilidade no trabalho e recursos para qualquer coisa que Luna precisasse. "Ela é da família," era sua única justificativa.
Uma noite, depois de um dia particularmente longo, Luna estava inquieta. O pesadelo havia sido forte. Carla ficou ao seu lado por mais de uma hora, segurando sua mão, contando histórias bobas sobre seu próprio trabalho, até que a respiração da menina se aprofundou e se igualou.
Carla estava se levantando para sair em silêncio quando a voz sonolenta de Luna a chamou.
— Carla?
— Estou aqui, amor.

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