O lado de fora do galpão era um vácuo de sensações. O vento cortante parecia não tocar Carla. Ela estava plantada no chão de terra batida, o braço latejando onde a bala passara, mas a dor física era um ruído distante. Tudo o que existia eram os sons que vazavam pelas paredes de metal corroído.
Primeiro, o grito agudo e animal de Rafael após o som de um tiro. Depois, sons abafados, impactos surdos, o ruído de algo sendo arrastado. E gritos. Gritos que não eram mais de dor física, mas de um terror absoluto, primordial, como de um homem vendo o abismo abrir-se sob seus pés. Gritos que eram rapidamente cortados por baques secos, até se transformarem em um choro rouco e quebrado, e então… em nada.
Silêncio.
Um silêncio tão denso e pesado que parecia sufocar o próprio vento. Carla não conseguia respirar. Suas mãos tremiam violentamente. Leandro, ao seu lado, segurando Luna, mantinha o rosto impassível, mas seus olhos estavam fixos na porta do galpão, vigilantes.
A porta se abriu.
Matheus emergiu.
A luz fraca da lanterna que iluminava a entrada revelou-o em fragmentos. O terno preto estava amarrotado, salpicado de manchas escuras e úmidas que não eram água. Suas mãos… suas mãos estavam visivelmente manchadas de um vermelho escuro e brilhante. Uma ou duas gotas haviam respingado em sua têmpora, contrastando brutalmente com a palidez de seu rosto.
Ele não parecia um homem. Parecia uma força da natureza que havia se materializado, um vulcão que havia entrado em erupção e agora esfriava em silêncio.
Ele caminhou até Leandro e sussurrou algo tão baixo que Carla não pôde ouvir. Leandro acenou com gravidade e, com a pequena Luna — que enterrava o rosto em seu ombro para não ver —, se dirigiu para o outro carro, o de fuga limpa.
Matheus então se voltou para o carro onde Carla estava paralisada. Ele abriu a porta do motorista e entrou. O cheiro dele invadiu o interior — suor, metal, e algo metálico e doce que ela não queria identificar.
Ele ligou o carro, as mãos ensanguentadas firmes no volante. Apoiou a cabeça no encosto por um segundo, os olhos fechados, respirando fundo. Quando os abriu, olhou pelo retrovisor, para o banco de trás, onde Carla estava.
— Você está bem? — a pergunta saiu áspera, mas carregada de uma preocupação genuína que parecia absurda naquele contexto. — E a Luna?
Carla, incapaz de falar, apenas balançou a cabeça. Sim. Estamos bem. A mentira mais fácil que ela já dissera.
Ele anuiu, um movimento seco, e colocou o carro em movimento. A viagem de volta foi feita em um silêncio opressivo. As luzes da estrada cortavam o rosto impassível de Matheus, iluminando por instantes os respingos sombrios em sua pele. Carla não tirava os olhos dele. O homem que conhecera, o amante selvagem e protetor, agora parecia uma estátua esculpida em granito e culpa.
De volta à mansão, a chegada foi um frenesi silencioso. Valentina, que estava à beira de um colapso nervoso, arrancou Luna dos braços de Matheus e a envolveu em um abraço tão forte que parecia querer fundi-la a si mesma. A menina começou a chorar, finalmente liberando o medo contido. Ian e Olívia estavam lá, faces graves, organizando médicos discretos, chá, silêncio. O alívio de ter Luna de volta era palpável, mas era um alívio pesado, manchado pelo preço que fora pago.
Matheus desapareceu. Foi direto para os aposentos dos funcionários, para um chuveiro que Carla sabia que ficaria vermelho. Carla, por sua vez, ficou na sala de visitas, abraçada por Olívia, tremendo, tentando processar. A filha. A ex-mulher linda e complicada. A violência. O amor confessado em meio ao horror. Era demais.
As horas passaram. A mansão aquietou-se. Luna, sedada e exausta, dormia no quarto ao lado de onde Léo também estava, com Valentina vigiando cada suspiro. Carla não conseguia ficar parada. A tensão entre ela e o espaço vazio que Matheus ocupava era um campo magnético, puxando-a para o abismo que se abrira entre eles.
Ela o encontrou na varanda dos fundos, olhando para a escuridão do jardim. Ele estava limpo, vestindo roupas simples, mas parecia mais distante do que nunca. O cheiro de sangue tinha ido embora, substituído pelo de sabão cru. Mas algo em seus olhos… algo estava quebrado, e não era só o cansaço.
— Carla — ele disse, sem se virar, sentindo sua presença.
Ela parou ao seu lado.
— Precisamos falar.
— Eu sei.
Ela começou, a voz trêmula mas determinada.
— A Luna… ela é linda. E assustada. E você… você a ama de um jeito que eu nunca… — Ela engasgou. — E a Valentina…
Matheus suspirou, um som profundo e cansado.
— Valentina foi um erro que durou anos. Foi paixão, foi dependência, foi tudo errado. Foi tóxico. Luna… Luna foi a única coisa certa que saiu daquilo tudo. Eu a amo mais que minha própria vida. E é por isso que eu nunca a trouxe para perto. Do meu trabalho. Dos meus inimigos. Do eu que você viu hoje. — Ele finalmente se virou para ela, seus olhos verdes implorando por compreensão. — Eu tenho medo, Carla. Medo de ser pai. Medo de estragar ela. Medo de que o mundo que eu habito a contamine. Escondê-la… era a única forma de proteção que eu sabia.
Carla escutou cada palavra, vendo a dor genuína nele, o amor imenso e aterrorizado. E, no meio daquele turbilhão, uma clareza surgiu.


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