VAMOS ADIAR O CASAMENTO
O sol da manhã parecia lutar para atravessar as nuvens carregadas que cercavam a Mansão Salvattore, mas a luz que restava apenas acentuava a melancolia do lugar. Henry aguardava Karen no jardim, o único refúgio onde as paredes da casa não pareciam estar ouvindo. Quando ela chegou, o silêncio foi interrompido apenas pelo som rítmico dos passos sobre o cascalho úmido. A governanta aproximou-se com a precisão de costume, depositando dois copos de suco de laranja sobre a mesa de ferro batido. O tilintar do gelo contra o vidro soou como um trovão naquele ambiente tenso. Assim que ela se retirou, a natureza pareceu segurar o fôlego. O ar estava denso, saturado com o cheiro metálico de chuva iminente e a fragrância de terra molhada que subia dos canteiros.
Henry não tocou no copo. Ele permanecia imóvel, mas sua aparência o traía. Os olhos, emoldurados por olheiras profundas, estavam injetados, um reflexo amargo das noites intermináveis vigiando os corredores estéreis e frios do hospital. Cada vez que ele piscava, parecia reviver o horror das últimas semanas e a preocupação com seu avô.
Karen o observava, sentindo que qualquer palavra dita naquele momento poderia romper o equilíbrio frágil daquela manhã. O silêncio que se seguiu não era apenas ausência de som; era um peso físico, uma barreira real que Henry finalmente teria que colocar.
— Karen, vamos adiar o casamento!
Disse ele, sem emoção.
— Não tem como celebrar nada com o meu avô naquele estado. Em dois meses, podemos pensar na celebração. Ele é tudo o que eu tenho. Meu foco agora é meu avô.
Karen forçou um sorriso, operando cada músculo facial. Era aquela mesma expressão que ela lapidava exaustivamente diante do espelho: o brilho suave nos olhos, a inclinação perfeita da cabeça, o ar de quem transborda empatia e doçura. Era uma máscara impecável. Por trás da fachada, no entanto, o cenário era de guerra. Uma queimação ácida de impaciência subia por sua garganta, como se cada segundo de silêncio fosse uma gota de combustível em um incêndio que ela lutava desesperadamente para não deixar escapar pelos dentes cerrados.
— Claro, Henry! Eu entendo querido.
Ela respondeu, a voz macia como seda.
— O Lorenzo é o pilar desta família. O que são sessenta dias diante de uma vida inteira que teremos juntos?
— Obrigado por entender. Achei que você fosse ficar extressada por causa dos fornecedores e o buffet.

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