UM CHEFE JUSTO
Com o boné abaixado e os ombros propositalmente caídos, Henry Salvattore deslizou pela porta lateral da presidência. Ele conhecia cada ponto cego das câmeras. Assim que a porta automática se fechou com um clique quase imperceptível, a postura de "faxineiro acuado" desapareceu. Henry se ergueu, revelando sua estatura imponente, e jogou o boné sobre a mesa de carvalho.
Antônio, seu assistente pessoal e a única pessoa que detinha as chaves de sua vida dupla, já o esperava com um tablet em mãos e uma expressão de leve urgência.
— O senhor está dez minutos atrasado para ser o Sr. Salvattore.
Comentou Antônio, sem desviar os olhos do cronômetro.
— Os investidores japoneses do grupo Nakatomi já estão no saguão VIP. A reunião começa em trinta minutos.
Henry sorriu de canto, um brilho de astúcia nos olhos.
— Eles acham que vão negociar com um herdeiro mimado, Antônio. Mal sabem o que vão encontrar.
— Excelente. Mas, por favor chefe, o cheiro de desinfetante não combina com o fechamento de um contrato de bilhões.
Brincou o assistente, apontando para a suíte conjugada.
Henry entrou na sala anexa. Sob o fluxo da água, o funcionário invisível dava lugar ao tubarão da tecnologia.
Minutos depois, a porta da suíte se abriu.
O homem que saiu de lá parecia ter outra aura. Henry agora vestia um terno sob medida em tom grafite, uma camisa de seda branca impecável e abotoaduras de platina que capturavam a luz da manhã. Ele ajustou o nó da gravata enquanto caminhava até o espelho.
Ao retornar à mesa principal, a transformação era absoluta. Não havia mais rastro de Lucca. O que restava era a personificação do poder. Antônio estendeu-lhe uma pasta de couro.
— Tudo pronto, senhor. Eles o aguardam na Sala de Conferência A.
— Deixe-os esperar mais alguns minutos, porque antes preciso que você resolva algo para mim.
Disse Henry, verificando o relógio de pulso.
O clima na sala da presidência mudou instantaneamente. O luxo do ambiente agora parecia gélido, acompanhando o tom de voz de Henry. Ele não estava apenas dando ordens; ele estava retomando as rédeas de um império que alguém ousou tentar governar em seu lugar.
Henry caminhou até a vidraça que dava vista para toda a cidade, as mãos nos bolsos da calça de alfaiataria, as costas rígidas como aço.
— Ligue para o departamento pessoal.
Começou Henry, sua voz soando como um trovão contido.
— E peça ao RH para fazer a carta de demissão da senhorita Giulia Martino. Ela está se passando por mim e demitindo funcionários sem minha autorização.

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