O silêncio na copa da Salvattore era denso, quebrado apenas pelo zumbido baixo da geladeira industrial. Henry, sob o disfarce do humilde faxineiro Lucca, sentia o peito arder, não pela leve irritação na pele, mas pela proximidade elétrica de Zoe.
Zoe guardou o tubo de pomada, seus dedos ainda levemente trêmulos após o contato inesperado com o torso do "faxineiro". O momento era íntimo demais para dois estranhos, e o ar parecia ter sumido do cômodo.
Henry, percebendo o rubor subir pelas bochechas dela e sentindo o próprio coração acelerar de um jeito que o herdeiro dos Salvattore jamais admitiria, decidiu quebrar o transe antes que sua máscara caísse.
— "Grazie..."
Ele murmurou, fechando a camisa de uniforme com pressa, mas sem desviar os olhos dos dela.
— "Você leva jeito para enfermeira, Zoe. Me diga... a quanto tempo você trabalha aqui na Salvattore?"
Zoe soltou um suspiro de alívio com a mudança de assunto, oferecendo um sorriso tímido enquanto limpava as mãos em um papel toalha.
— "Ah, já faz dois anos"
Ela respondeu, a voz recuperando a firmeza.
— "Gosto do ritmo daqui, embora o 'chefe' seja um mistério para a maioria de nós. E sinceramente, eu não quero problemas com o novo CEO, dizem que ele é cruel. Que saudades do Senhor Lorenzo. Ele era um bom chefe para todos."
Henry arqueou uma sobrancelha, divertido com a ironia. Ele a observou com mais atenção. Havia uma melodia diferente na forma como ela pronunciava as vogais italianas, uma suavidade que não pertencia às ruas de Milão ou Roma.
— "Dois anos? Você deve conhecer bastante gente aqui".
Falou ele, com um brilho de curiosidade no olhar.
— "Mas seu sotaque... ele tem um calor que não é daqui. Você é imigrante?"
Zoe riu baixo, uma risada que soou como música para os ouvidos de Henry.
— "É tão óbvio assim?"
Ela perguntou, recostando-se na mesa.
— "Sou brasileira. Vim para a Itália com a minha mãe há quatro anos. Viemos em busca de uma vida nova após a morte do meu pai, e acabei encontrando meu lugar nesse caos da moda e dos negócios."
Henry assentiu, processando a informação. Havia uma força nela que explicava muita coisa. "Brasil...", pensou ele, guardando aquele detalhe como um tesouro. Para o mundo, ele era o patrão inacessível; para Zoe, naquele momento, ele era apenas Lucca, fascinado pela mulher que acabara de cuidar de suas feridas.
— Lucca!
Ela chamou suavemente.
— Como está sendo a experiência? Está gostando de trabalhar aqui na Salvattore?
Henry olhou para ela novamente.
— Para ser honesto, só tenho uma semana no cargo, mas estou gostando sim. É um lugar... imponente. As pessoas parecem sempre ocupadas com coisas importantes.
Zoe riu baixo, encostando-se levemente na parede.
— É, aqui o ritmo é frenético. Fico feliz que esteja se adaptando. Mas e você?
Ela inclinou a cabeça, curiosa.

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