O tilintar dos talheres de prata e o murmurinho das conversas polidas do jantar finalmente haviam ficado para trás. Aproveitando a distração dos convidados na sala de estar, Nicola e Valério escaparam discretamente para o escritório da mansão Moretti. A pesada porta de madeira de lei se fechou, trancando o som do mundo lá fora e deixando apenas o crepitar suave da lareira e o cheiro denso de charuto e Whisky no ar.
Valério serviu duas doses do líquido âmbar. Ele observava o primo há horas. A mente de Nicola não esteve naquela mesa nem por um segundo. Caminhando até a escrivaninha, entregou o copo ao parente e quebrou o silêncio, o tom cortante de desconfiança:
— O que está acontecendo com você, Nicola? Você passou o jantar inteiro distante, como um fantasma. E, para ser sincero, eu não engoli essa história de "indisposição" da Juliana. Ultimamente, ela não sai do seu lado quando você vem a esta casa.
Nicola soltou um suspiro pesado, o olhar fixo no seu copo. A tensão nos seus ombros era visível.
— As coisas entre mim e a minha "namorada de fachada" estão fugindo completamente do meu controle, Valério.
Valério ergueu uma sobrancelha, congelando com o copo a meio caminho da boca.
— Como assim?
Nicola passou a mão livre pelo rosto, transparecendo uma frustração crua.
— É uma loucura. Eu comecei a desejar o beijo dela. O corpo dela, o cheiro... Praga de perfume que parece grudado no meu pulso! E o pior de tudo: no último evento da empresa, eu quase estraguei tudo. Quase moí a cara de um dos garçons na porrada. Por causa dela. Eu tive que me conter na hora.
Valério o encarou com os olhos arregalados, a surpresa desarmando sua postura impecável.
— Um garçom? Nicola, você perdeu a cabeça?
— O nome dele é Riccardo.
Respondeu Nicola, entredentes, o travessão de sua mandíbula denunciando o ciúme que tentava desesperadamente negar.
— Descobri na hora que o desgraçado era ex-namorado da Juliana. Ver aquele cara olhando pra ela... tocando no braço dela... me subiu um sangue quente que eu nunca senti antes.
Um silêncio tenso pairou no escritório. Valério soltou uma risada fraca, descrente, antes de concluir o óbvio:
— Então você está apaixonado por ela.
— Nunca! Claro que não!
Nicola reagiu quase instantaneamente, a voz subindo um tom, defensiva e desesperada.
— Você sabe perfeitamente que o meu coração pertence à Caterina. Sempre foi ela. Mas a Juliana... a Juliana é uma explosão. Ela está me deixando completamente insano. Aquele cabelo castanho longo pelas costas, as pernas enormes, aquele corpo magro, mas cheio de curvas perigosas... e aquela boca, Valério. Aquela boca linda que parece me provocar sem dizer uma única palavra.
Valério balançou a cabeça, encarando o primo com uma mistura de pena e divertimento sombrio.
— Meu caro primo... você está absolutamente ferrado. Você gosta dela.

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