Dante saiu do quarto e caminhou pelo corredor em direção à saída. Já era tarde. Entrou no carro e, antes de ligar o motor, respirou fundo uma vez. Depois outra. A cena do acidente voltou, como sempre voltava, para acusá-lo.
O som.
O impacto.
O corpo no asfalto.
- Essa culpa eu vou carregar, disse em voz alta.
Soou como uma declaração. Ou talvez como um confronto. Falava com o invisível, como se exigisse explicações de Deus.
Pela primeira vez desde a morte de Mônica, Dante permitiu que o pensamento avançasse para aquilo que considerava maior do que ele, mas em que já não confiava. A fé havia se rompido no dia em que perdeu a esposa.
O que mais você quer de mim?
A pergunta não buscava resposta.
Já não bastou levar a Mônica?
Já não bastou deixar a Olie sem mãe?
Me deixar com essa culpa atravessada no peito por ter acreditado em você quando mais precisei?
Fechou os olhos por um instante.
Mônica tinha lúpus. Não era um quadro leve. Tratava-se de um quadro severo. Havia riscos desde o início, alertas repetidos, noites em claro. Ainda assim, existiam chances. Foi nisso que ele se agarrou.
Na fé.
Acreditou que, mesmo diante de um corpo frágil, Deus estaria no controle. Que aceitar os riscos de uma gravidez não seria em vão. Que não seria justo perder depois de tanta luta.
Mas foi exatamente isso que aconteceu.
Mônica morreu no parto, antes de ouvir o primeiro choro de Olie. Os médicos não puderam salvá-la. Olie também nasceu fraca e prematura, precisou ficar internada por um tempo, lutando para ganhar forças antes de poder ir para casa. Tempo suficiente para Dante enterrar a esposa e aprender, à força, como seguir sozinho com um bebê nos braços.
- Você à levou de mim, disse, sem suavizar. - E ainda espera que eu confie?
Não houve resposta.
Nunca havia.
Naquele dia, ao se despedir de Mônica, fizera uma promessa silenciosa: nunca mais pediria nada.
Endireitou o corpo. O gesto automático de quem aprendeu a seguir sem amparo.
Se ela acordar bem, decidiu, vou oferecer uma indenização. Vou ajudá-la a seguir em frente. É o que posso fazer.
A decisão não vinha de fé. Vinha de responsabilidade.
Se ela não estiver bem, continuou, vou amparar a família. Vou assumir o que for preciso.
Não era promessa feita a Deus. Era um acordo consigo mesmo.
Era o limite do que ainda acreditava poder controlar.
Consultou o relógio. Já era tarde.
Ligou o motor e seguiu para casa. Ao entrar, encontrou a governanta na sala e perguntou:
- Você conseguiu contratar alguma babá?
- Não consegui, senhor Owen. Nenhuma delas se enquadrava nas suas exigências.
- Droga. Será que é pedir demais alguém minimamente qualificado?
Virou-se para ela, decidido:
- Continue procurando. Quando encontrar, contrate imediatamente.
Agradeceu e seguiu para o quarto. Olie já dormia.
Mais uma vez, ele não chegou a tempo.
A madrugada avançava devagar no hospital.
Não era silêncio absoluto, mas um intervalo diferente do resto do dia. Menos vozes, menos passos, menos interrupções. O tempo parecia passar mais lentamente.
Foi nesse intervalo que Melissa acordou novamente.
Não despertou de uma vez. A consciência retornou em partes, como se fosse preciso atravessar camadas até alcançar algo reconhecível. Havia um peso no corpo. Um peso estranho, que não correspondia apenas ao cansaço que ela conhecia tão bem. Era diferente, como se não tivesse forças sequer para se sustentar sozinha.
Abriu os olhos. A luz da UTI irritou-lhe a visão, e ela precisou fechá-los novamente.
De olhos cerrados, tentou organizar os pensamentos, mas eles vinham soltos, sem ordem. Não havia imagens claras, apenas a sensação insistente de que algo estava errado.
A preocupação veio antes da memória.
Um som escapou de sua garganta, baixo, quase involuntário.
- Ela está acordando, disse uma voz próxima.
Melissa tentou falar, mas o ar parecia curto demais. A garganta estava seca. Tudo exigia esforço.
- Calma, respondeu outra voz, firme. - Você está no hospital. Sofreu um acidente.
- Água… pediu, com voz fraca, tomada pela sede.
A enfermeira se apressou em embebecer um algodão e molhou-lhe os lábios com cuidado, deixando algumas gotas escorrerem para dentro da boca, aliviando a garganta ressecada.
Ela tentou se mover novamente. O corpo respondeu com atraso. Foi então que a dor começou a se impor, espalhada, ocupando espaço dentro dela.
Respirou com dificuldade.
- Meu pai… - conseguiu dizer, com esforço.
O médico se aproximou do leito, inclinando-se para ficar à altura de seu rosto.
- Você consegue me dizer seu nome? - Precisamos localizar sua família.
Melissa piscou algumas vezes. A dor pulsava agora, mas havia algo mais forte naquele momento.
Preocupação. Não com ela, mas com o pai.
- Me chamo…, voz falhou. - Mel…
Richard aguardou, sem pressionar.
- Mel? Incentivou. - Continue.
Ela respirou fundo, sentindo o esforço pesar no peito.
- Melissa… disse com dificuldade. - Melissa Cross.
A equipe anotou rapidamente.
- Certo. E o nome do seu pai?
- John…, respondeu, sentindo a pressão aumentar. - John Cross.
Richard se virou para a equipe, já dando um passo adiante.

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