Dante saiu da empresa mais cedo naquele dia.
Não avisou ninguém. Apenas fechou a pasta, pegou o casaco e deixou o prédio antes que o movimento do fim da tarde tomasse os corredores.
No caminho até o hospital, pensou em muitas coisas.
Pensou em começar se desculpando, em dizer que irá assumir tudo, inclusive uma indenização. Mas ainda assim, talvez não fosse o suficiente. Mas não sabia o que mais dizer.
Quando estacionou, permaneceu alguns segundos dentro do carro, com as mãos apoiadas no volante. Não havia ensaio possível para aquela conversa.
Entrou no hospital e seguiu direto para a UTI. A enfermeira o reconheceu.
- Senhor Owen, disse, em tom profissional. - Veio conversar com o Dr. Richard?
- Sim. Onde ele se encontra?
- Está logo ali. - Vamos, eu o acompanho. Ela hesitou por um instante antes de perguntar. - Pretende ver a paciente também?
- Sim. - Quero saber o boletim médico e, na sequência, irei vê-la.
A enfermeira já sabia que Melissa não queria vê-lo e informou a Dante de que, enquanto ele conversava com o médico, ela iria perguntar à paciente se aceitava recebê-lo.
Dante assentiu, sem entender ao certo. Ele estava ali para vê-la.
Enquanto aguardava o Dr. Richard terminar uma avaliação, a enfermeira foi avisar Melissa de que Dante estava no hospital.
Entrou no quarto.
Melissa estava acordada. Os olhos atentos para quem ainda sentia dor. A enfermeira a olhou com certa tensão, e Melissa concluiu imediatamente.
- O homem que me atropelou está aqui, não é?
- Sim, respondeu a enfermeira. - Ele está com o Dr. Richard agora e pretende vir vê-la.
Melissa fechou os olhos por um instante.
A imagem voltou inteira.
O farol.
A rua.
O impacto.
- Não, disse, firme. Desta vez, a voz não saiu fraca. - Não agora. - Não quero vê-lo.
A enfermeira não insistiu.
Naquele mesmo instante, o Dr. Richard se aproximou de Dante no corredor.
- Senhor Owen, chamou, com o prontuário em mãos. - Precisamos conversar.
- Sim. Estou aqui para isso. - Como está a paciente?
- Ela está consciente, explicou o médico. - Acordou durante a madrugada e novamente pela manhã. Teve episódios de dor intensa, mas a resposta neurológica é boa. - Está lúcida, orientada, sem sinais de déficit cognitivo ou motor até o momento.
- Ela vai ficar com sequelas? Perguntou Dante, direto.
- Ainda é cedo para afirmar qualquer coisa, respondeu o médico. - Mas o quadro evolui melhor do que o esperado. - As costelas exigirão repouso. A recuperação será lenta, mas, até o momento, não há indícios de sequelas. Precisamos avaliá-la em pleno funcionamento para confirmar.
Dante respirou fundo.
- Entendo. Fez uma pausa. - Mas que ótima notícia. - Que ela fique bem logo. - Vou vê-la agora.
Enquanto caminhava em direção ao quarto de Melissa, a enfermeira o interceptou no corredor.
- Senhor Owen…, disse, com cuidado. - Ela pediu um tempo. Disse que não está pronta e não quer vê-lo.
A frase o pegou de surpresa.
Dante franziu levemente a testa.
-Ela… pediu?
- Pediu, confirmou a enfermeira. - De forma clara.
Houve um segundo de silêncio.
Dante não estava acostumado àquilo. Não à recusa. Não à ideia de que aquela jovem, que ele vinha chamando mentalmente de pobre coitada, tivesse uma decisão própria tão firme.
- Entendo, disse por fim, mesmo sem entender de fato.
- Recomendo respeitar, acrescentou a enfermeira.
- Claro, respondeu Dante. - Diga a ela que volto depois.
Caminhou até o elevador sem pressa. Desceu até o estacionamento e entrou no carro. Fechou a porta, ligou o motor… e ficou parado.
O silêncio se impôs.
Pensou em ir embora. Pensou que talvez fosse melhor assim. Que cada um seguisse seu caminho. Que indenização, advogados e acordos resolvessem o que precisava ser resolvido.
Mas havia algo ali que não se resolvia com distância.
Desligou o motor.
Saiu do carro.
Entrou novamente no hospital.
Não pediu autorização. Não explicou nada. Apenas seguiu pelo corredor até o quarto onde Melissa estava internada.
Abriu a porta com cuidado.
Melissa estava acordada.
Quando o viu, o coração acelerou antes mesmo que pudesse pensar.
Ele não se aproximou de imediato. Parou a alguns passos da cama.
E foi ali que Dante a viu de verdade.
Não mais em preto e branco.
Agora havia cor.
Um leve tom rosado nas bochechas. Os olhos cor de mel estavam abertos e atentos, trazendo equilíbrio e harmonia à pele clara e aos cabelos negros. Os lábios, naturalmente vermelhos, denunciavam que a vida começava a voltar.
Ela estava frágil.
Mas viva.
E bela, de um jeito que o pegou de surpresa.

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