Alice
A casa da minha tia parecia menor naquela noite.
Talvez fosse a decisão pesando nos meus ombros. Talvez fosse o fato de que, pela primeira vez, eu estava entrando ali sabendo que não ficaria.
O carro do Coroa parou alguns metros antes do portão. Ele desceu comigo, mas não falou nada. Apenas ficou na calçada, braços cruzados, postura firme, como se aquele chão já soubesse quem ele era.
— Eu entro sozinha — falei.
Ele assentiu, mas os olhos permaneceram atentos.
Empurrei o portão enferrujado e senti o coração apertar. Cada passo até a porta carregava memórias que eu não sabia se queria guardar.
Quando entrei, as vozes vinham da cozinha.
— Eu te disse que essa menina não ia dar em nada — minha tia Lenice falava, sem perceber minha presença. — Sempre foi problemática. Desde pequena. Um peso.
Meu tio resmungou algo que não consegui ouvir.
— Agora olha a vergonha — ela continuou, a voz carregada de desprezo. — Andando com bandido. Sendo levada pra galpão. A gente cria, dá teto, dá comida… e é assim que paga.
Meu peito queimou.
Eu fiquei parada por um segundo, absorvendo cada palavra como se fossem pedras arremessadas.
— Sempre foi diferente — ela disse, mais baixa, mas ainda audível. — Nunca agradeceu de verdade. Nunca pertenceu aqui.
Foi aí que eu me movi.
— Eu estou ouvindo — falei, a voz saindo mais firme do que eu esperava.
Ela se virou num sobressalto, o rosto endurecendo ao me ver.
— Ah, chegou a estrela do morro.
— Eu só vim pegar minhas coisas.
— Suas coisas? — ela riu, amarga. — Tudo que você tem foi a gente que deu.
Senti as mãos tremerem, mas não baixei os olhos.
— Eu nunca pedi nada além de respeito.
— Respeito? — ela avançou um passo. — Você desonrou essa casa! Tá se envolvendo com criminoso! Sua mãe deve estar se revirando no túmulo!
Aquilo me atravessou como uma lâmina.
— Não fala da minha mãe — sussurrei, sentindo as lágrimas subirem.
— Eu falo sim! Porque se ela tivesse te criado direito, você não estaria nessa situação! Sempre foi rebelde. Sempre quis mais do que podia ter. Sempre um peso!
Peso.
A palavra ecoou dentro de mim, esmagadora.
— Eu perdi meus pais! — minha voz saiu em grito. — Eu não escolhi isso! Eu só tentei sobreviver!
— Sobreviver não é se j**ar no colo de bandido! — ela retrucou. — Tá achando que ele vai te salvar? Homem daquele tipo usa e j**a fora!
Meu coração disparou.
— Você não sabe nada sobre mim! — gritei de volta. — Nunca soube!
A discussão explodiu.
Portas batendo. Acusações voando. Anos de silêncio transformados em gritos.
— Você sempre foi ingrata! — ela berrou. — A gente devia ter te mandado embora há muito tempo!
As lágrimas finalmente caíram.
— Então por que não mandou? — desafiei, a voz quebrando. — Porque eu limpava a casa? Porque eu ajudava nas contas? Porque era conveniente ter um peso útil?
O silêncio que veio depois foi pesado.
Mas ela não recuou.



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