Alice
Eu estava decidindo.
Essa constatação me atravessou como um choque elétrico. Durante dias eu me senti encurralada, pressionada pelo prazo, pelos cochichos, pela tensão silenciosa que pairava no morro. Mas ali, naquele instante, não havia ninguém me segurando pelo braço. Não havia ordem. Não havia ameaça.
Havia apenas ele… esperando.
O Coroa não era um homem acostumado a esperar. Eu sabia disso. Todo mundo sabia. Mesmo assim, ele ficou parado, me observando com aquele olhar que parecia pesar escolhas, medir consequências.
Eu passei a língua pelos lábios secos.
— Se eu for com você… — comecei, escolhendo cada palavra como se fosse frágil — não quero ser tratada como propriedade.
A mandíbula dele tensionou levemente, mas ele não desviou o olhar.
— Você nunca foi — respondeu firme. — E não vai ser.
Eu queria acreditar. Parte de mim acreditava. Outra parte gritava que aquele era um mundo onde as regras eram diferentes, onde promessas eram mantidas à base de poder.
— E a faculdade? — perguntei. — Meu trabalho?
— Você continua — ele disse, sem hesitar. — Eu não vou tirar isso de você. Pelo contrário.
Eu franzi a testa.
— Pelo contrário?
Ele respirou fundo, como se estivesse escolhendo revelar algo que normalmente manteria guardado.
— Eu não preciso de mais uma pessoa que dependa de mim por falta de opção. Se você estiver comigo, vai ser porque decidiu. E eu quero você forte.
A palavra ecoou dentro de mim.
Forte.
Eu sempre lutei para ser isso. Forte o suficiente para sobreviver à perda dos meus pais. Forte o suficiente para estudar enquanto o mundo ao redor desmoronava. Forte o suficiente para ignorar os julgamentos.
Mas agora eu estava diante de uma força diferente — uma força que não vinha de livros ou trabalho, mas de poder bruto.
— E o que você quer de mim, de verdade? — perguntei, finalmente.
O silêncio que se formou foi pesado.
Ele deu um passo à frente, mas ainda manteve distância respeitosa.
— Eu quero você perto — disse. — Quero confiar em alguém que não me olha só por medo ou interesse. Quero alguém que me diga a verdade olhando nos meus olhos.
Meu coração disparou.
— Isso não parece trabalho — murmurei.
Ele quase sorriu.
— Não é só.
A sinceridade na voz dele me desarmou mais do que qualquer aproximação física. Não havia jogo ali. Havia intenção.
Eu pensei na minha tia revirando minha mochila. Nos gritos. Na sensação de nunca pertencer àquela casa. Pensei nos cochichos do morro, na marca que já estava estampada no meu nome.
Se eu já estava sendo julgada como envolvida… o que exatamente eu estava tentando preservar?
— Se eu for — falei devagar — eu não vou abandonar quem eu sou.
Ele assentiu.


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