Quando a dona Eva baixou a porta de ferro e girou a chave, senti o corpo finalmente ceder. O dia inteiro tinha sido um teste de resistência. Despedi-me dela, agradeci mais uma vez e saí para a rua já escurecendo.
Foi aí que vi o Biel.
Encostado no muro em frente à loja, braços cruzados, olhar inquieto. Aquilo não fazia sentido. Biel nunca me esperava depois do trabalho. Meu primeiro impulso foi de estranhamento, mas forcei um sorriso e caminhei até ele.
— Ué… tá fazendo o quê aqui? — perguntei, tentando soar normal.
— Oi pra você também — ele respondeu, sem devolver o sorriso.
Algo no tom dele fez meu estômago se revirar.
— Aconteceu alguma coisa? — insisti.
Ele respirou fundo, passou a mão pelo rosto, como quem ensaia uma frase difícil. Depois me olhou direto nos olhos.
— Alice… o Coroa quer falar com você de novo.
O mundo pareceu inclinar.
— Como é que é? — sussurrei.
— Ele mandou avisar. Disse que era pra te encontrar hoje ainda.
Senti o sangue sumir do rosto.
— Mas… eu não fiz nada. Já ficou provado — falei, mais para me convencer do que para convencer o Biel.
— Eu sei — ele respondeu rápido. — E é isso que me preocupa.
Meu coração começou a bater forte demais.
— O que exatamente ele disse? — perguntei.
Biel hesitou um segundo.
— Disse que ficou uma conversa pendente.
Pendência. A palavra ecoou dentro de mim como um presságio.
Olhei para a rua, para a loja fechada, para o céu já escuro. Tudo em mim gritava para correr, para dizer não, para desaparecer. Mas eu sabia como as coisas funcionavam ali. Quando o Coroa chamava, não era um convite.
— Quando? — perguntei, a voz baixa.
— Agora.
Fechei os olhos por um instante, sentindo o mesmo arrepio da primeira vez percorrer minha espinha.
Eu não queria ir.
Mas sabia que não ir podia ser pior.
E, no fundo, havia algo ainda mais assustador do que o medo…
a sensação de que uma parte de mim já sabia que esse segundo encontro mudaria tudo.
Quando cheguei, encontrrei o galpão vazio. Só ele lá dentro, de costas, olhando a cidade pela janela quebrada.
— Você veio — ele disse, sem virar.
— Me mandaram vir — respondi.
Ele se aproximou devagar.
O silêncio se tornou pesado, elétrico.
— Você anda me deixando curioso demais — ele murmurou.
Senti a respiração falhar com a sua aproximação.
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