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O Coroa dono do Morro romance Capítulo 5

Quando a dona Eva baixou a porta de ferro e girou a chave, senti o corpo finalmente ceder. O dia inteiro tinha sido um teste de resistência. Despedi-me dela, agradeci mais uma vez e saí para a rua já escurecendo.

Foi aí que vi o Biel.

Encostado no muro em frente à loja, braços cruzados, olhar inquieto. Aquilo não fazia sentido. Biel nunca me esperava depois do trabalho. Meu primeiro impulso foi de estranhamento, mas forcei um sorriso e caminhei até ele.

— Ué… tá fazendo o quê aqui? — perguntei, tentando soar normal.

— Oi pra você também — ele respondeu, sem devolver o sorriso.

Algo no tom dele fez meu estômago se revirar.

— Aconteceu alguma coisa? — insisti.

Ele respirou fundo, passou a mão pelo rosto, como quem ensaia uma frase difícil. Depois me olhou direto nos olhos.

— Alice… o Coroa quer falar com você de novo.

O mundo pareceu inclinar.

— Como é que é? — sussurrei.

— Ele mandou avisar. Disse que era pra te encontrar hoje ainda.

Senti o sangue sumir do rosto.

— Mas… eu não fiz nada. Já ficou provado — falei, mais para me convencer do que para convencer o Biel.

— Eu sei — ele respondeu rápido. — E é isso que me preocupa.

Meu coração começou a bater forte demais.

— O que exatamente ele disse? — perguntei.

Biel hesitou um segundo.

— Disse que ficou uma conversa pendente.

Pendência. A palavra ecoou dentro de mim como um presságio.

Olhei para a rua, para a loja fechada, para o céu já escuro. Tudo em mim gritava para correr, para dizer não, para desaparecer. Mas eu sabia como as coisas funcionavam ali. Quando o Coroa chamava, não era um convite.

— Quando? — perguntei, a voz baixa.

— Agora.

Fechei os olhos por um instante, sentindo o mesmo arrepio da primeira vez percorrer minha espinha.

Eu não queria ir.

Mas sabia que não ir podia ser pior.

E, no fundo, havia algo ainda mais assustador do que o medo…

a sensação de que uma parte de mim já sabia que esse segundo encontro mudaria tudo.

Quando cheguei, encontrrei o galpão vazio. Só ele lá dentro, de costas, olhando a cidade pela janela quebrada.

— Você veio — ele disse, sem virar.

— Me mandaram vir — respondi.

Ele se aproximou devagar.

O silêncio se tornou pesado, elétrico.

— Você anda me deixando curioso demais — ele murmurou.

Senti a respiração falhar com a sua aproximação.

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