Fiquei tentando desaparecer. Na Rocinha, isso era quase uma piada. Baixei a cabeça, mudei caminhos, evitei gente. Mas como ficar invisível em um lugar onde o Coroa via e sabia de tudo? Onde cada passo era observado, cada ausência comentada?
Foram dois dias tentando me convencer de que aquele beijo não significava nada. Dois dias repetindo isso como um mantra inútil.
Fui à faculdade como uma morta-viva. Eu sentava na sala, olhava para frente, mas não estava ali. As palavras entravam por um ouvido e saíam pelo outro. Meu corpo respondia no automático, enquanto minha mente voltava, insistente, para o galpão.
— Alice, você tá estranha — Sara dizia, sem parar. — Você não fala, não briga, não ri… o que aconteceu?
— Nada — eu mentia, de novo. — Só cansaço.
Mas no fundo, eu sabia. Sabia desde o momento em que empurrei o peito dele e saí correndo.
Aquilo tinha significado.
As mãos ainda tremiam quando eu lembrava do toque dele.
O coração acelerava quando a voz baixa surgia na minha memória, firme demais para ser esquecida:
vai acontecer de novo.
E o pior era admitir — mesmo que só para mim — que uma parte minha queria que acontecesse.
No terceiro dia, quando a moto parou ao meu lado e o homem do Coroa disse que o chefe queria falar comigo, eu não me surpreendi. Senti medo, sim. Mas também uma estranha sensação de destino se cumprindo.
A subida até o galpão parecia mais longa. O coração batia tão forte que chegava a doer.
Quando entrei , encontrei o Coroa sentado, revisando papéis. Ele levantou o olhar devagar. O mesmo olhar que lia minha alma.
— Senta — ele disse.
Eu só obedeci.
— Você andou pensando no que aconteceu? — ele perguntou, direto.
Eu engoliu seco.
— Pensei… que não devia ter acontecido.
Ele sorriu de canto.
Um sorriso perigoso.
— Então por que veio tão rápido quando eu mandei chamar?
Eu abri a boca, mas nenhuma resposta saiu.
Ele levantou, caminhou até a mim , devagar, como sempre. E quando ficou perto demais, eu prendi a respiração.
— Eu quero que você trabalhe para mim — ele disse.
Eu pisquei, surpresa.
— T-trabalhar? Eu? No quê?
— Preciso de alguém inteligente, rápida, e que não tenha medo de olhar na minha cara.
Eu arregalei os olhos.
— Mas eu… eu estudo. Eu quero a faculdade…e já trabalho na lojinha da dona Eva
— Eu sei — ele respondeu. — E eu não vou atrapalhar seu estudo,Tambem sei que você não ganha bem
Pela primeira vez, vi algo que parecia quase… cuidado da parte dele .
— Eu te pago bem. Você não vai mais depender de favor de ninguém naquela casa.
Eu senti meu peito apertar.
Era tentador.
Perigoso demais.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: O Coroa dono do Morro