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O Homem que Nunca Me Deixou Ir romance Capítulo 1

Em Verdejante.

O solavanco das rodas do avião ao tocar a pista despertou Ivete Tavares de seu torpor. O longo voo internacional de treze horas finalmente havia chegado ao fim.

Ela estava de volta, enviada pela matriz para um intercâmbio profissional de seis meses.

Ivete jamais imaginou que pisaria ali novamente. Afinal, aquele era o lugar de onde ela havia fugido, ainda que para isso tivesse precisado cortar todos os laços.

Quarenta minutos depois, desembarcou no Aeroporto de Verdejante.

O vento gelado do lado de fora cortava a pele. O céu estava cinzento, e a ventania começava a ganhar força.

Parada na saída do desembarque, Ivete apertou melhor o casaco ao redor do corpo. Ao olhar em volta, sentiu como se tivesse voltado para uma vida passada. Fazia exatos dez anos que havia ido embora.

— Ivete Tavares!

Seguindo a direção da voz, ela avistou sua grande amiga, Catarina Castellani, do outro lado da rua, acenando freneticamente e gritando seu nome com empolgação.

Assim que o fluxo de carros diminuiu, Catarina correu para ela de braços abertos.

O rosto de Ivete afundou no casaco grosso da amiga, e sua voz saiu abafada:

— Como você descobriu que eu chegaria hoje? Eu nem te falei qual era o meu voo.

— Acha mesmo que isso seria um obstáculo para mim? — Catarina a abraçou pelos ombros com força. — Vamos logo, já reservei uma mesa naquela churrascaria que você tanto gosta.

O clima em Verdejante continuava implacável, a velha churrascaria seguia a mesma, e os sabores ainda traziam o conforto de sempre.

— Você foi embora e passou dez anos fora. — Catarina entregou o tablet de pedidos a Ivete. — Na época, por mais que eu tentasse, nada do que eu dizia adiantava.

Ivete baixou o olhar, mantendo um sorriso discreto.

— Você soube que Estevão Belmonte ficou noivo? Nesses dez anos em que você esteve fora, a família Belmonte chegou ao auge. Nicolas Belmonte não só virou o maior nome do empresariado em Verdejante, como Estevão passou a ocupar um cargo de peso no governo. Hoje ele não é só um nome fortíssimo no poder, mas também um dos candidatos com mais chances de subir ainda mais nas próximas eleições.

— Se você não tivesse rompido o noivado, você e o Estevão provavelmente já teriam filhos a essa altura.

As mãos de Ivete pararam por um instante. Um lampejo de surpresa atravessou seus olhos, mas logo foi substituído por uma frieza distante sob os longos cílios.

— Já faz tanto tempo. Pra que tocar nesse assunto agora?

Engolindo a dor, ela voltou a si e empurrou a porta com dificuldade. O vento brutal, carregado de gotas pesadas e geladas, cortava suas bochechas pálidas como lâminas.

A tempestade dificultava até manter os olhos abertos, tornando impossível enxergar com clareza o rosto da pessoa à sua frente. O homem hesitou por um instante antes de perguntar:

— Sra. Ivete Tavares?

O coração de Ivete deu um salto. Havia pouquíssimas pessoas em Verdejante que ainda se lembravam dela. Aquilo não podia ser uma coincidência.

Como ela continuou em silêncio, o homem voltou até a porta traseira do SUV e murmurou algo para quem estava lá dentro.

Aproveitando a brecha, Ivete abriu a porta traseira do próprio carro para examinar Catarina mais de perto e suspirou aliviada ao constatar que estava tudo bem.

Sentindo um líquido quente escorrer pelo pulso, baixou os olhos. O sangue já começava a manchar a manga do suéter branco.

Suportando a dor, recolheu o pulso para dentro da manga do casaco e ajeitou o cachecol no pescoço para impedir que a chuva fria continuasse entrando pela roupa.

Quando ergueu os olhos, viu uma figura alta caminhando em sua direção através da tempestade.

O homem tinha uma postura imponente. Vestido com um sobretudo preto e comprido, avançava sob a chuva como se a tormenta não fosse capaz de abalá-lo.

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