Valentina se virou e viu Félix do outro lado do corredor, vestindo um terno bem cortado. O impacto do seu rosto fez o coração dela bater mais forte por um instante.
A reação instintiva do corpo foi mais rápida que o ódio, e as lágrimas rolaram pelo seu rosto.
Félix já se aproximava, e Áurea andava ao lado dele, de mãos dadas.
Ele viu as lágrimas no rosto de Valentina e franziu levemente a testa. Quase levantou a mão para enxugá-las, mas conteve o impulso logo em seguida.
Valentina apenas disse um fraco "Zeno", como forma de cumprimento.
Áurea correu, pegou na mão dela, não viu os doces, e na hora fez uma careta, olhando com insatisfação.
— Mamãe, cadê os doces que pedi para comprar?
Valentina se agachou, abraçou Áurea e disse suavemente:
— A mamãe não te avisou que tinha um compromisso? Eu compro na próxima vez.
Áurea a empurrou. Não foi com força, mas aquele gesto doeu como um tapa no rosto de Valentina.
— Mas você está mentindo! Você nem trabalha, é impossível ter compromissos.
A menina recuou dois passos com o rosto vermelho.
— Você é mesquinha! O que a Tia Larissa te fez de errado?
Após dizer isso, ela correu chateada para os braços de Félix e começou a chorar:
— A Tia Larissa não vai ter doces para comer!
Félix acariciou as costas da menina para confortá-la, pegou-a no colo e olhou para Valentina, com a testa franzida:
— Valentina, se você prometeu algo para ela, como não cumpre? Como vai dar um bom exemplo assim?
Valentina, sentada no chão, sentiu um calafrio no peito, com o rosto cheio de incredulidade.
Aquela era a criança que ela carregou por nove meses, deu à luz arriscando a vida e criou com todo esforço nos últimos cinco anos como viúva.
Ela ficou parada, olhando para Áurea, e por um momento perdeu as palavras.
O ar congelou naquele instante.
Valentina ficou parada, ainda com a mão segurada pela filha. Sentia o coração gelado.
Larissa hesitou um pouco e olhou para Valentina. Atrás delas, Félix entrou e fechou a porta, sem demonstrar nenhuma intenção de intervir.
Larissa sorriu gentilmente.
— Áurea, não tem problema, não faz mal se eu não comer.
A menina, muito séria, retrucou:
— Não pode! Se a mamãe não cumpriu o que prometeu, é porque ela está errada. A professora disse que quem erra tem que pedir desculpas.
Ela se virou, olhando para Valentina:
— Mamãe, peça desculpas rápido, peça para a Tia Larissa te perdoar.
Valentina abaixou a cabeça, e ao olhar para os olhos claros da filha, de repente sentiu que aquela criança era assustadoramente estranha.

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