O outro lado ficou em silêncio por um momento, seguido por uma voz fria e esperada:
— Quando você volta?-
Valentina engoliu em seco. Tudo em que conseguia pensar era na apresentação anual do jardim de infância no mês seguinte, que havia prometido assistir com Áurea.
Após um longo tempo, ela abriu a boca.
— Daqui a um mês.
— Resolva tudo por aí. A família Nogueira não precisa de uma filha com laços não cortados.
Valentina concordou em silêncio e desligou o telefone. Suas unhas cravaram na pele.
Nesses cinco anos, havia desistido da própria vida por Félix, recebendo em troca uma farsa meticulosamente planejada. Sua vida parecia O Show de Truman.
Valentina era doutora em medicina com duplo diploma pela Universidade Federal de Nova Alvorada. Ela nunca gostou das intrigas do mundo dos negócios. Após se formar, seguiu seu mentor até o laboratório. Com suas habilidades, foi efetivada em um mês e, em um ano, liderou a equipe em avanços na pesquisa de medicamentos contra o câncer.
Na época, seu professor a aconselhou, dizendo que o caminho da pesquisa exigia dedicação total e que a família Ferraz era muito complicada; se ela fosse para lá, dificilmente conseguiria voltar.
Mas, parecendo estar enfeitiçada, ela deixou o laboratório com firmeza.
Se não tivesse saído, hoje já teria o seu espaço garantido lá e poderia continuar a carreira que tanto amava.
Com esse pensamento, Valentina sentiu uma dor no peito. Seu coração parecia ter sido perfurado por agulhas.
Ela deu um sorriso amargo. De que adiantava pensar nisso agora? Havia brigado feio com seu mentor na época, e, mesmo que quisesse voltar, ele não a perdoaria.
— Valentina?
Uma voz suave a trouxe de volta de suas lembranças. Ela notou que o táxi já havia parado em frente ao Instituto. Ela abriu a porta e viu um homem de sobretudo se aproximando. Ao vê-la, os olhos dele brilharam de surpresa.
Era seu colega, Nélio Farias.
O Dr. Alberto Menezes, mentor dos dois, só tinha a ela e a Nélio como discípulos diretos.
Valentina abaixou o olhar, evitando o contato visual.
— Nélio.
— Mamãe, onde você está? A Tia Larissa quer comer uns doces, compra alguns lá na Confeitaria Florescer e traz para cá.
O coração de Valentina sofreu um leve solavanco. Ela reprimiu a dor e tentou soar gentil.
— Áurea, você já está no hospital? A mamãe tem um compromisso agora, posso ir mais tarde? A mamãe vai comprar o seu ursinho de pelúcia favorito.
Áurea a interrompeu:
— Mamãe, você é muito chata. Toda vez que eu peço alguma coisa, você enrola. Eu já prometi para a Tia Larissa, assim você me faz passar vergonha.
Valentina prendeu a respiração, mas tentou explicar com paciência:
— A mamãe realmente tem uma coisa muito importante para fazer.
Áurea respondeu:
— Você nem trabalha, quão importante podem ser as suas coisas?

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