POV Dylan
Assim que a pesada porta de carvalho da suíte de Lucy se fechou com um clique suave, o silêncio do meu apartamento desabou sobre mim com o peso de uma bigorna.
Fiquei parado no corredor por alguns segundos, encarando a madeira escura. Atrás daquela porta estava uma mulher que eu não conhecia há vinte e quatro horas, mas que agora detinha o poder de implodir a minha vida financeira e profissional.
Esfreguei o rosto com as duas mãos, sentindo a exaustão daquele dia insano cobrar o seu preço. Eu nunca perdia o controle. Essa era a regra de ouro que me mantinha no topo da cadeia alimentar de Wall Street. Eu calculava riscos, antecipava movimentos e destruía a concorrência antes mesmo que eles soubessem que estávamos em guerra.
Mas a noite em Las Vegas era um buraco negro na minha mente. E isso me aterrorizava.
Dei as costas para a ala leste e caminhei a passos pesados até o meu escritório, localizado no lado oposto da cobertura. O ambiente era um reflexo da minha mente: organizado, frio, milimetricamente posicionado. Fui direto até o bar de nogueira, hesitei com a mão sobre a garrafa de uísque escocês de trinta anos, mas recuei. Eu precisava de lucidez total. Fui até a máquina de expresso e tirei um café duplo, negro e sem açúcar.
O interfone na minha mesa piscou, acompanhado de um bipe irritante. Apertei o botão.
— Senhor Lancaster — a voz robótica do porteiro-chefe ecoou. — O senhor Marcus Stell está subindo. Ele disse que o senhor está esperando.
— Libere a subida, Carter.
Minutos depois, Marcus invadiu o meu escritório. Ele era meu Diretor de Relações Públicas, meu advogado pessoal e, na ausência de opções melhores, o mais próximo que eu tinha de um amigo de confiança. Ele parecia ter envelhecido cinco anos desde a última vez que nos vimos.
— Diga-me que é uma jogada de marketing bizarra, Dylan — Marcus disparou antes mesmo de se sentar, jogando um tablet sobre a minha mesa de vidro. A tela exibia a manchete do tabloide, a foto ridícula com a luz de neon refletindo nos nossos rostos letárgicos. — Por favor, diga-me que você comprou uma capela em Vegas e isso é um golpe publicitário para despistar a Receita Federal.
— Sente-se, Marcus. — Tomei um gole do café, o líquido fervente queimando a minha garganta, ajudando a me manter focado. — Não é um golpe. Eu me casei com ela. E nós assinamos um contrato pré-nupcial em um guardanapo que estipula uma multa de cem milhões de dólares para quem pedir o divórcio antes de um ano.
Marcus parou no meio do movimento de puxar a cadeira. Ele me encarou com a boca ligeiramente aberta, os olhos arregalados.
— Cem... Você perdeu a porra da cabeça?!
— Alguém tirou ela de mim. — Apoiei os cotovelos na mesa, entrelaçando os dedos. — Eu não estava bêbado, Marcus. Eu bebi dois copos de uísque no bar do hotel depois de uma ligação insuportável da minha mãe. Isso não é o suficiente para me fazer apagar e acordar no altar. Fui dopado.
Marcus finalmente afundou na cadeira, passando a mão pelos cabelos ralos. A mente de advogado dele já estava processando os danos.
— Chloe? — ele perguntou, o tom de voz baixando. — Ela ficou furiosa quando você rompeu o noivado mês passado. Jurou vingança no saguão da empresa, na frente de quinze executivos.
— É uma possibilidade. Ou algum membro do Conselho que quer a minha cadeira. Seja quem for, escolheu a garota a dedo. Lucy não é do nosso mundo. É enfermeira, trabalha em turnos exaustivos, não tem um centavo no nome dela. Quem armou isso sabia que o contraste social seria um banquete para a mídia e um infarto para o meu avô.
Como se o universo tivesse um senso de humor sádico, a linha vermelha do meu telefone fixo, a linha direta e criptografada, começou a piscar ferozmente.
Só uma pessoa no mundo usava aquela linha.



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