Ver Scarlett chorar era uma tortura para Ryke, mas havia uma coisa positiva: ele conseguiu segurá-la perto de seu peito. Em seu momento de vulnerabilidade, ela não era mais defensiva e rude, tornava-se apenas uma garota simples, em busca de um pouco de carinho. De alguma forma, isso o lembrou da mulher que conheceu naquele quarto de hotel, fortemente drogada, mas ainda assim, divertida e legal. Ele sentia falta desse lado dela e desejava vê-lo novamente.
Ela chorou muito e longamente. Quando as pessoas começaram a olhar para eles muito insistentemente, Ryke a levou para dentro do elevador e pressionou o andar térreo. Scarlett não ergueu os olhos nem uma vez, o rosto ainda enterrado no peito dele, enquanto a segurava pela cintura. Ele tinha certeza que sua camisa ficaria arruinada, pois ficaria encharcada com todas as suas lágrimas, a ponto de parecer que ele esteve sob a chuva. Isso o teria irritado em qualquer outra circunstância, mas, mais uma vez, tudo era diferente quando se tratava de Scarlett.
Ele a tirou do hospital e ela não resistiu, provavelmente por não estar olhando para onde eles iam. Ela só o fez quando chegaram ao carro e Ryke abriu a porta para deixá-la entrar. Scarlett franziu a testa, notando que o Maybach daquela manhã havia sumido e, em vez disso, havia um Bentley novinho em folha na frente dela, no qual entrou e esperou que ele fizesse o mesmo.
"Outro carro emprestado?" Ela perguntou assim que ele sentou-se ao volante.
"Sim." Ryke respondeu, com uma voz ligeiramente irritada.
Ele deu a ela outro lenço, que a jovem usou para enxugar as lágrimas. Apesar do quão grata era, Scarlett não conseguia parar de pensar que ele era bastante sem-vergonha. Extorquia sem rodeios de mulheres sem um pingo de culpa. Um carro Maybach pela manhã e agora um Bentley? Quer dizer, quantas mulheres ricas giravam em torno dele? Deveria ter vergonha de ganhar a vida dessa maneira, no entanto, ostentava isso com orgulho. Para receber tanto dinheiro e privilégios, deveria ter feito coisas horríveis com aquelas mulheres…
O carro acelerou e Ryke olhou algumas vezes para o rosto dela, imaginando o que pensava. Ficou um pouco tímido, quando ela se virou e encontrou seus olhos, limpando a garganta e dizendo as primeiras palavras que sua mente tinha a oferecer:
"Escute! Deve ser verdade quando as pessoas dizem que as mulheres são feitas principalmente de água. Agora mesmo, você deve ter chorado todas as lágrimas do seu corpo. Minha camisa tá completamente arruinada e seu rosto também, e parece patética."
Scarlett sentiu sua raiva aumentar novamente, e jogou o lenço nele, que caiu em seu colo quando ela na verdade mirava no rosto.
"É só uma camisa, tá bom? Isso não te dá o direito de me insultar."
Mas ao dizer isso, Scarlett olhou para a camisa de seda dele e percebeu que provavelmente custava muito dinheiro, mais do que ela tinha. Na verdade, estava sem um tostão e ficaria mais envergonhada se o homem lhe pedisse para pagar pela bagunça que fez com suas lágrimas. Felizmente, ele não o fez.
"Só me diga o que aconteceu no hospital." Ele disse em vez disso, mas ela ainda estava com um humor teimoso.
"Não vou te dizer." Ela rosnou, cruzando os braços sobre o peito.
"Ah... Bem, não precisa, eu posso adivinhar, sabe? Você provavelmente foi intimidada por sua meia-irmã de novo, né? Quer dizer, isso não é nada surpreendente pra mim. Mas o que me faz refletir, mesmo, é que você tem apenas chorado, como se isso pudesse resolver todos os seus problemas. Qual é o sentido de chorar, se não vai fazer algo e revidar? Qual é o propósito de ter um cérebro dentro da sua linda cabecinha?"
Scarlett suspirou frustrada. O cara não havia mudado nada, né? Ainda tinha uma boca suja e estava determinado a fazê-la se sentir péssima consigo mesma. No entanto, a ideia de sair do carro novamente não surgiu como de manhã. Agora, ela meio que precisava bastante dele, pois não tinha para onde ir e ele era a única pessoa que se importava remotamente com ela. Então, ficou sentada, mas fez questão de mostrar como estava chateada, através da expressão fechada em seu rosto.
Não retrucar foi bastante eficaz, porque ele foi menos agressivo quando falou novamente:
"Só me conta, tá bom? Quero te ajudar."
Ela olhou para ele e viu a sinceridade em seus olhos, convencida de que ele dizia a verdade e, naquele momento, ela precisava de toda a ajuda que pudesse conseguir. Então, contou a ele tudo o que havia acontecido desde que se separaram pela manhã. Ryke escutou sem interrompê-la nenhuma vez, até que ela terminou. Parecia que ele dirigia sem um destino claro em mente.
"Então você deixou aquela sua irmã idiota te manipular de novo? Você tinha que saber que não deveria ter ido ao café. Tem sorte de não ter acabado desfigurada e presa."
"Ugh, eu sei... não precisa fazer eu me sentir pior do que já tô."
"Tá bom. Então, o que vai fazer agora?"
"Não faço ideia. O que não vou fazer, com certeza, é pedir desculpas a essas v*dias. O papai literalmente escolheu defendê-las, em vez de mim. Disse que não sou mais filha dele e que me renega até que eu me desculpe, mas isso nunca vai acontecer. Vou sobreviver, já tenho um emprego pra me sustentar."
"Nossa, que nobre da sua parte!" Ele disse em tom sarcástico: "Então vai deixar sua meia-irmã e a mãe dela se mudarem pra sua casa e levar tudo o que pertence a você? Vai deixá-las roubar sua vida assim?"
"E? Você quer que eu vá pedir desculpas a elas? Fazer papel de boba?!"
"Não pedi pra você se desculpar, só quero que perceba que não é tão indefesa quanto pensa. Vai ser muito fácil se deixá-las escapar impunes de tudo o que fizeram com você... deve revidar."
"Revidar pelo quê?" Scarlett sussurrou em um tom triste: "Esse dinheiro nem é meu, é do meu pai e ele não me quer mais. Não quero voltar pra casa dele, prefiro dar tudo a Megan do que depender do meu pai de novo."

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