POV ALICE.
O ar no interior do templo vibrava com uma energia antiga e indomável, carregado de um peso que parecia atravessar o tempo. As chamas das velas tremulavam, projetando sombras dançantes nas paredes cobertas de inscrições em um idioma esquecido. Meus sentidos estavam aguçados ao extremo, cada batida do meu coração ecoava como o tambor.
Darius permaneceu ao meu lado, sua presença era minha âncora em meio ao desconhecido. O calor de sua pele contrastava com o frio cortante do ambiente, um lembrete de que eu não estava sozinha. Lulu, com seu olhar enigmático e cintilante, caminhava em círculos ao redor do altar, sua cauda oscilando no ar com a precisão de um ponteiro marcando o tempo. Algo estava prestes a acontecer. Eu podia sentir.
Uma luz prateada começou a emanar do centro do altar, expandindo-se lentamente, envolvendo as oferendas dispostas sobre a pedra negra. O sangue de Darius e o meu haviam sido absorvidos pelo símbolo entalhado na superfície fria, e agora ele brilhava intensamente, refletindo o esplendor da lua sobre um lago sereno.
Lulu ergueu a cabeça e soltou um uivo profundo, carregado de algo primitivo e arrebatador. O som reverberou pelo templo, ecoando como se os próprios alicerces daquele lugar respondessem ao chamado. Um vento gélido soprou do nada, chicoteando meus cabelos e fazendo minha pele arrepiar. Precisei me firmar para não perder o equilíbrio.
— Deusa Lua, guia e guardiã dos filhos da noite, protetora dos nossos instintos e do nosso destino, atenda ao nosso chamado! — entoou Lulu, sua voz impregnada de poder, ressoando como um trovão que rompeu o silêncio solene do templo.
Darius e eu trocamos um olhar antes de nos ajoelharmos diante do altar. Eu não estava nada confortável em me ajoelhar para uma deusa na qual não acreditava, mas precisávamos de respostas. E, como Lulu havia instruído e garantido que era necessário, engoli meu orgulho e me pus de joelhos. O próximo passo exigiria mais do que sangue e ingredientes mágicos. Exigiria fé.
— Alice, Darius, repitam comigo — ordenou Lulu, a voz grave e solene, carregada de um peso impossível de ignorar. Respirei fundo, sentindo meu peito se comprimir, antes de acompanhar suas palavras:
— Que a Deusa Lua nos reconheça, que nossa essência seja oferecida com honra e que o laço forjado sob a luz prateada nos guie no caminho do destino — entoou Lulu.
Darius e eu repetimos as palavras em uníssono, e, no instante em que finalizamos, um brilho azul-escuro serpenteou pelo altar, enroscando-se ao nosso redor como uma névoa. O chão sob nós vibrou levemente, e os símbolos no altar pareceram ganhar vida, pulsando em um ritmo idêntico ao do meu coração acelerado. Foi quando ela apareceu.
Uma figura emergiu do brilho prateado, tomando forma diante de nossos olhos. A mulher que surgiu era de uma beleza hipnotizante, como se tivesse sido esculpida pela própria lua. Sua pele clara possuía um brilho sutil, refletindo a luz prateada da noite, e seus olhos, grandes e expressivos, exibiam um tom de cinza prateado que oscilava entre mais claro e mais escuro, como o céu noturno em constante transformação.
Seus cabelos eram longos e ondulados, negros como a noite, mas com reflexos azulados que cintilavam a cada movimento, como se carregassem um fragmento do próprio luar. Quando ela se movia, os fios deslizavam suavemente, envolvendo seu rosto delicado como um manto etéreo. Seus lábios tinham um tom rosado natural, e seu sorriso era discreto, carregado de mistério e um magnetismo que prendia o olhar.
Suas vestes eram elegantes e leves, em tons escuros e prateados, como se fossem parte da própria noite. O perfume que emanava dela era uma mistura suave de jasmim e brisa noturna, um aroma delicado, mas marcante, que deixava uma sensação persistente no ar. Algo nele me pareceu familiar, e uma estranha inquietação tomou conta de mim.
Ela começou a caminhar, seus passos eram lentos e precisos, como se sempre soubesse exatamente para onde estava indo. Sua postura transbordava confiança, e sua presença era arrebatadora. Sua voz, quando se fez ouvir, era serena e envolvente, um tom que, ao mesmo tempo, acalmava e despertava uma curiosidade impossível de ignorar.
Olhei para Lulu, esperando encontrar nela a mesma surpresa que estampava o rosto de Darius. Mas ao contrário dele, ela parecia… tranquila. Pior. Ela apreciava a cena. Então ela já sabia. Fiz uma expressão de súplica para ela, mas Lulu somente bocejou, como se aquilo fosse algo banal.
— Minha deusa, acho que está assustando Alice — disse Lulu enfim, e sua voz quebrou a tensão sufocante. A deusa afastou-se de imediato, e foi então que vi claramente as lágrimas escorrendo por seu belo rosto.
Ela se levantou, ainda visivelmente emocionada, e estendeu a mão para me auxiliar a me pôr de pé. Aceitei por puro reflexo, mas, assim que me levantei, dei um passo rápido para trás, me posicionando ao lado de Darius, que imediatamente segurou minha mão. Me recuperando um pouco do choque, falei:
— Que história é essa de filha? — perguntei, sem a menor preocupação com formalidades ou com a forma correta de me dirigir a uma divindade.
Eu não me importava com isso. Eu queria respostas. A deusa suspirou. Com um simples movimento de mão, dois sofás brancos e incrivelmente confortáveis surgiram diante de nós. Ela se sentou em um deles e, com um olhar carregado de algo profundo, murmurou:
— Por favor, sentem-se. O que tenho para contar não será fácil para nenhum de nós.

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