A rua deserta, mergulhada no silêncio da madrugada, era o palco de um embate silencioso. Do outro lado da calçada, dois homens se encaravam. A tensão era palpável, e as palavras, embora proferidas em voz baixa, cortavam o ar como lâminas.
Daniel contraiu o canto dos lábios em um esboço de sorriso que não alcançava seus olhos. Suas íris negras, profundas e gélidas, fixaram-se no homem à sua frente.
— Que fetiche peculiar o seu, Sr. Eduardo... — a voz de Daniel era puro veneno. — Gosta de visitar as esposas dos outros no meio da noite?
Eles mal se conheciam, mas o uso formal do sobrenome selou o destino daquela interação: de estranhos, tornaram-se adversários declarados.
— Daniel, dê a ela um pouco de liberdade. Deixe-a respirar — rebateu Eduardo, sentindo o peso da mudança.
Eduardo olhou para a silhueta de Alana. Ele mal podia acreditar que aquela mulher, que há dois anos transbordava alegria, havia se transformado em uma sombra. Ela estava taciturna, com o riso extinto e o cenho permanentemente franzido por uma tristeza latente. Ela emanava uma opressão que lhe partia o coração. O que aconteceu nesses dois anos?, ele se perguntava.
— Nossos assuntos não são da sua conta — sentenciou Daniel.
Sem esperar resposta, ele entrou em seu Maybach, bateu a porta e deu partida. Ele só precisava confirmar uma coisa: se Alana teria a audácia de deixar Eduardo passar a noite ali. Quanto ao "castigo" para sua esposa desobediente... ele ainda estava decidindo a melhor forma de dobrá-la.
O carro arrancou, deixando Eduardo para trás com um suspiro complexo e amargo.
Enquanto isso, na segurança do quarto, as emoções de Alana começavam a transbordar. O gatilho foi a insistência de Suzi.
— Por que você chegou tão tarde, Alana? O que está escondendo?
Alana tentou desconversar. Não queria admitir que mariela, mudando-se para a casa aonde foi decorada para viver com Daniel, que deveria ser o lar. Mas, sob o interrogatório implacável de Suzi, a verdade veio à tona.
— Aquela víbora fez de propósito! — Suzi esmagou o travesseiro de coelho entre as mãos, os dentes rangendo de fúria.
Alana estava estirada na chaise longue, observando o teto enquanto seus cabelos caíam em cascata. Sua voz era um sussurro exausto:
— Não importa o que ela fez. O que importa é que eu consiga o divórcio o mais rápido possível.
Ela percebeu que não adiantava mais fugir ou hesitar. Prolongar aquele casamento falido era como manter uma ferida aberta; só tornaria a humilhação mais profunda.
— Amanhã eu vou com você! — Suzi exclamou, beligerante. — Vou contratar dois guarda-costas e vamos confrontar aquele canalha do Daniel no Grupo Scroop!
Alana balançou a cabeça, encolhendo-se.
— Não quero escândalos, Suzi. Só quero a minha liberdade. Eu não tenho forças para lutar contra ele.
— Pois eu tenho! — retrucou a amiga. — Depois que você se livrar dele, eu vou achar um jeito de dar uma surra que ele nunca vai esquecer!
Apesar da dor, Alana passou a noite em claro revisando o acordo de divórcio. Desta vez, ela foi radical: abriu mão de cada centavo. Ela não queria bens, não queria pensão; ela queria o direito de respirar sem o peso de Daniel sobre seus ombros.

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