Devido ao ferimento na cabeça, Daniela Peixoto pediu licença naquele mesmo dia e voltou para casa para se recuperar.
Dormiu profundamente, sem sequer perceber a passagem das horas.
Quando acordou, já estava escuro lá fora. Com a testa ainda latejando, levantou-se, tateou até encontrar o copo d’água e tomou um gole.
— Bang! —
Um barulho forte veio da janela.
Um bolinho de papel bateu no vidro.
— Dany! —
Alguém a chamava suavemente lá embaixo.
Daniela Peixoto abriu a cortina e olhou para fora, reconhecendo de imediato a silhueta alta e magra que se destacava ao pé do prédio.
O uniforme escolar do rapaz estava desbotado, com aparência de muito usado, mas ele mantinha uma postura ereta, quase como um pinheiro solitário. O vento noturno bagunçava seus cabelos e acariciava seu rosto, e não dava para saber há quanto tempo ele estava ali.
— Narciso Farias? —
Narciso Farias era vizinho de Daniela Peixoto na comunidade. Quando era mais novo, sofria constantemente com os maus-tratos do padrasto, um alcoólatra e jogador. Daniela o ajudou a escapar dessas situações mais de uma vez, e assim eles acabaram se tornando amigos.
Mas depois que ela foi encontrada pela família Peixoto, Narciso começou a se distanciar.
Apesar de ter sido aceito no Colégio Imperial de São Cristóvão graças ao seu excelente desempenho — o mesmo colégio de Daniela —, os dois nunca trocaram uma palavra durante todo o ensino médio.
Por isso, ao vê-lo ali embaixo, Daniela ficou claramente surpresa.
Cinco minutos depois, vestiu um pijama às pressas e desceu.
— Narciso Farias, o que você está fazendo aqui? —
De perto, percebeu que ele estava um tanto desarrumado. O uniforme azul e branco tinha manchas de musgo, e os joelhos exibiam marcas de terra.
Provavelmente havia caído ao pular o muro para entrar.
O rosto sempre sereno de Narciso demonstrou certo constrangimento. Ele apertou as alças da mochila, abriu o zíper de repente e enfiou um saco plástico pesado nas mãos de Daniela.
O saco estava quente e tinha um peso considerável.
Ao abrir, ela viu que havia mais de vinte ovos cozidos lá dentro.
Daniela ficou sem reação, ergueu os olhos para Narciso.
Sob a luz tênue, o rosto bonito do rapaz ganhou um tom avermelhado, e a voz saiu rouca:
— Acabei de cozinhar. Coma logo, antes que estraguem. —
Sem esperar resposta, virou-se rapidamente, pulou o muro e desapareceu na noite.
O vento da noite ainda era morno, mas o coração de Daniela se aquecia, assim como os ovos em seu colo.

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