Planeta Azul.
República de Áquila, Valenúbia.
— É tudo culpa da Tainá. Tinha que empurrar a Senhorita Laura da escada bem nesse momento, obrigando todos nós a ficarmos de guarda aqui.
— Hoje é a festa de apresentação da Senhorita Laura à sociedade. É um evento grandiosíssimo, e ouvi dizer que muitas figuras importantes da alta sociedade estarão presentes.
— Disseram que o braço da Senhorita Laura está machucado, e ela ainda terá que receber os convidados usando tipoia. Coitadinha... Vocês acham que isso foi pura inveja?
— Inveja? Isso é maldade pura! Afinal, são irmãs de sangue, e a família demorou tanto para trazê-la de volta. Como a Tainá teve coragem de fazer uma atrocidade dessas?
— Ah, se ela tivesse pelo menos metade da bondade e do juízo da Senhorita Laura, as coisas seriam diferentes.
(...)
No porão escuro e úmido, uma adolescente de dezesseis ou dezessete anos encolhia-se no canto.
Ela já estava há um dia inteiro sem beber uma única gota de água. Seus cabelos pendiam desgrenhados e, em seu rosto, a marca de cinco dedos estampava-se com clareza.
Com os olhos fechados e o cenho franzido, seus cílios longos tremiam de vez em quando, evidenciando um sono extremamente agitado.
De repente, um sobressalto percorreu seu corpo e ela despertou. Seus olhos, escuros como a noite, transbordavam pânico, para logo depois cederem a uma profunda confusão...
Ela não havia morrido? Num gesto automático, levou a mão ao pescoço.
Tainá ainda se lembrava vagamente do frio cortante e da dor excruciante quando a lâmina a perfurou, bem como do olhar de desdém que recebera de sua própria família.
Lentamente, ela varreu o ambiente com os olhos.
O que encontrou foi um quarto sombrio, sufocante, e uma porta trancada.
Do lado de fora, ouviam-se murmúrios insatisfeitos dos empregados, misturados ao som de música e aos passos apressados vindos do andar de cima.
Uma onda de raiva familiar subiu-lhe pelo peito. Somada ao medo e à fome, fez com que seu corpo tremesse incontrolavelmente.
Então ela se lembrou: ali era o porão, o porão da mansão de sua própria família.
E hoje era a festa de apresentação de Laura Torres.
Será que ela havia renascido?
Se não fosse pelo espetáculo do dia anterior, ela deveria estar lá em cima, participando do banquete com o resto da família.
Sendo uma figura pública, ele era quem mais se importava com aparências e reputação.
O segundo irmão, César, decretou: — Não tem problema. Se ela ameaçar fazer alguma cena amanhã, dou-lhe uma injeção para que durma.
Como médico, o que não lhe faltavam eram métodos para manter alguém quieto.
Já o quarto irmão, Giovani, foi ainda mais cruel: — O problema é que fomos muito permissivos com ela no passado. Por mim, nós a mandaríamos para o reformatório. Só sofrendo um pouco é que ela vai aprender a se comportar.
— O que está dizendo? Ela é sua irmã de sangue. Você quer destruir o futuro dela?
No fim das contas, a mãe, Viviane Lopes, ainda não conseguia ser tão impiedosa.
— Mamãe... na verdade, mandar para o reformatório... não vai arruinar o futuro dela. É um lugar mantido pelo governo para educar os jovens. Se ela for para lá, no futuro... ela pode evitar seguir por um caminho ruim.
Laura falava entre soluços, tentando persuadi-los.
— De jeito nenhum, eu não concordo.
Felizmente, Laura estava na família há apenas dois meses, e a consciência de Viviane ainda não havia sido completamente extinta.
Por fim, o pai, Martim Torres, desferiu um tapa cruel no rosto de Tainá e ordenou: — Tranque-a no porão por três dias e três noites. Não lhe deem uma única gota de água.

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