— Tainá, eu vim te buscar.
A figura de Thiago, recortada pela claridade, exibia um tom de afeto casual, quase íntimo.
Tainá cerrou um pouco os olhos, ofuscada, e permitiu-se um segundo de devaneio.
Havia o ditado de que "um irmão mais velho é como um pai".
Doze anos mais velho, Thiago fora não apenas uma figura fraterna, mas o pilar de sua criação.
Na infância, com o pai focado na ascensão dos negócios e a mãe imersa na vida social intensa, Tainá passava a maior parte do tempo aos cuidados de terceiros.
Foi Thiago quem assumiu o papel de preencher aquela ausência, participando de forma ativa na vida da pequena.
Ele lhe ensinou a escrever, guiou-a nas artes marciais, contou-lhe histórias de ninar e a levava todos os dias para o colégio. Se alguma criança a ofendesse, ele estaria lá para garantir que o agressor pagasse caro por isso.
Se o pai lhe incutia respeito e certo temor, Thiago era o farol seguro onde ancorava sua confiança inabalável.
Justamente por isso, ver o irmão se afastar e devotar cada vez menos tempo a ela a consumira de desespero no passado.
Em sua vida anterior, ela sangrou e suou para tentar reatar aquele laço.
Quando ele sugeriu que moças deveriam ser polidas e contidas, Tainá domesticou sua própria alegria, abandonando as gargalhadas altas e a leveza que a definiam.
Quando ele exigiu dedicação exemplar aos estudos e às artes marciais, Tainá comprimiu seu cronograma, sacrificando o tempo de lazer em prol de uma disciplina rígida.
E quando ele aconselhou que fosse forte e independente, Tainá engoliu o pranto e os desabafos, saboreando a amargura na solidão.
Ela se contorceu de todas as formas para caber no molde da irmã perfeita aos olhos de Thiago. Apenas para ouvi-lo dizer para Laura: "Você é perfeita desse jeito. Continue agindo naturalmente, seja autêntica".
A ironia doía.
Movendo-se com letargia, Tainá endireitou o corpo e caminhou de forma ritmada rumo à luz que abraçava a silhueta do irmão.
Ao alcançá-lo, ela simplesmente passou reto, seu rosto desprovido de qualquer emoção.
Dessa vez, ela não seria a sombra em busca do afeto de ninguém.
Pego de surpresa, o CEO apenas estalou a língua e franziu o cenho, convencido de que Tainá mantinha uma atitude teimosa e mimada.
Ele deixou escapar um suspiro resignado.
Para que limpar a sujeira? Para encenar um quadro de harmonia que não existia?
E vestir o quê? O evento da noite fora desenhado meticulosamente para exaltar o vestido de milhares de dólares que a herdeira recém-chegada ostentava. Tainá era uma convidada indesejada em sua própria casa.
Tentar usar qualquer roupa elegante seria em vão; ela se pareceria apenas com um acessório descartável de luxo. A aparência lastimável que ostentava agora causaria um impacto devastadoramente mais teatral.
— Meu Deus, Tainá, o que fizeram com você? Que horror!
— Tainá! Ouvi uns idiotas lá fora dizendo absurdos! Espalhando que você derrubou a sonsa da Laura de propósito. Tive que segurar a Débora para ela não voar no pescoço de um deles.
— Aquela lá... dá pra ver de longe que é a maior falsa inocente... Foi ela que armou isso, não foi?
(...)
Ao reencontrar suas melhores amigas, um soluço entalou na garganta de Tainá. Luna e Débora, suas inseparáveis parceiras de colégio, estavam ali com ela.
— Que modo de falar é esse? A Laura é uma garota exemplar.
Aquele tom afiado de Thiago era repulsivo para Tainá.

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