Os lábios de Norberto tremeram ligeiramente, mas nada saiu. Ele inclusive desviou o rosto, evitando o olhar incisivo e opressor de Tereza; colocou as mãos na cintura e passou a observar a paisagem pela janela.
— Norberto. — O cansaço apoderou-se subitamente de Tereza, mas a sua voz soou ainda mais gelada. — Você quer que as coisas sejam justas. Pois bem, primeiro prove que consegue cumprir a sua parte. Se eu exigisse que você expulsasse a Hera da Família Cardoso e a destituísse do cargo de diretora da Apex, você seria capaz de fazer isso?
Norberto virou a cabeça abruptamente para fitá-la, como se as palavras que acabara de escutar fossem o maior absurdo de todos.
Tereza permaneceu fixando-o, até que seus olhos ficaram avermelhados de frustração.
Passaram-se cinco, dez segundos!
— Está vendo? Você é absolutamente incapaz. — Tereza então abaixou a cabeça, e um riso amargo brotou de seus lábios.
— Não se deixe levar por boatos. Entre mim e a Hera não existe nada. Pare de imaginar coisas. — advertiu-a Norberto com a voz embargada de frieza, após ficar em silêncio por dois segundos.
Tereza contemplou as marcas dos dedos impressas no rosto esbelto de Norberto. Havia sido estapeado e ainda assim continuava arrogante e inflexível nas suas mentiras; a sua situação não tinha conserto.
— Você pede para que eu não me deixe levar por boatos. Tudo bem. Então me diga: onde foi que esses boatos começaram?
— Eu não faço ideia do que você está dizendo. — Norberto franziu o cenho; evidentemente não sabia responder, e o seu tom transparecia irritação.
— Não faz ideia? — Tereza sabia perfeitamente que ele tentava, uma vez mais, fazer-se de desentendido e fugir do assunto, aquele era o seu truque de sempre. No entanto, dessa vez, ela não iria permitir tamanho descaso.
— Então eu vou te contar! — Tereza cruzou os braços contra o peito e virou-se, de costas para ele, mirando também a janela. Cada sílaba era entoada com precisão. — Toda a corporação tem espalhado rumores de que o Diretor Cardoso e a sua cunhada viúva são amores de infância. Quando ela escolheu se casar com outro no passado, você não conseguiu aceitar essa realidade. Agora que o seu irmão mais velho partiu, você e essa viúva finalmente podem estar juntos...
— Cale a boca. — A palidez do rosto de Norberto deu lugar a uma expressão aterradora: — Eu já disse que não permito que difame a honra dela. Você precisa mesmo dizer palavras tão cruéis e infundadas?
Tereza voltou-se novamente, examinando-o com os seus olhos limpos. A profunda zombaria e o desdém refletidos ali fizeram com que Norberto perdesse a coragem de encará-la.
— Se vocês dois tivessem o mínimo de decência, pelo menos tentariam ser mais discretos. Você com certeza não quer que a sua filha cresça e, ao buscar o seu nome na internet, acabe descobrindo os escândalos amorosos do pai com a tia. Norberto, como é que você espera que ela enfrente algo assim...
— Não diga mais nada. Eu resolverei todas essas calúnias e boatos. Pare de dizer absurdos na frente da Delfina. — A respiração de Norberto era curta e áspera; o seu rosto exibia um vermelho escuro de exasperação. A voz saiu ríspida, seca.
— Norberto, foi exatamente por causa dela que você me abandonou, várias e várias vezes. Isso é um fato. Você não tem como refutar.
Norberto encontrava-se cravado no mesmo lugar, petrificado. Não havia nada que pudesse dizer.
— Tereza, se eu quisesse ficar com ela, não estaria esperando até hoje, você entende? — Quando Tereza finalmente começava a acreditar que ele se manteria no silêncio da admissão, Norberto abriu a boca. A voz saía gutural e sofrida, emergindo de algum ponto fundo no peito.
Tereza apenas o olhou; pensou no quão sem vergonha e patético ele conseguia ser.
— Ela cresceu debaixo do meu nariz. Se eu nutrisse algum tipo de desejo ou afeição inapropriada por ela, oportunidades não me faltariam em todos esses anos. — Norberto fechou as pálpebras, não tentando olhá-la.

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