Os dedos de Tereza apertaram os talheres instantaneamente. Tentando soar casual, ela perguntou: — Por que você acha isso?
Delfina murmurou: — Então por que a mão do papai estava machucada e você nem sequer demonstrou preocupação?
— O quê? O que aconteceu com a mão dele? — surpreendeu-se Tereza.
— Ontem eu queria comer uma maçã, e quando ele estava descascando para mim, cortou o dedo. Sangrou bastante. Eu disse para ele procurar você, já que você é médica, mas o papai não deixou — Delfina explicou, franzindo a testinha.
Tereza franziu o cenho. Norberto havia se distraído e cortado a própria mão. Ele era um adulto, perfeitamente capaz de cuidar de um ferimento sozinho. Por que ele envolveria o nome dela naquilo?
— E também... e também você nem fala mais com o papai. — As mãozinhas de Delfina apertavam a barra da própria blusa, e sua voz diminuiu: — Vocês não eram assim antes. Você conversava com o papai, e ele sempre puxava assunto com você.
Tereza sentiu um solavanco no peito. Olhar para aquela criança tão pequena e magoada à sua frente lhe causou uma dor imensa.
— Delfina — Tereza tentou suavizar o tom da voz o máximo possível: — A mamãe e o papai...
De repente, Delfina olhou para ela com os olhos avermelhados: — Mamãe, por favor, não briguem, está bem? A Delfina tem medo.
Dizendo isso, a menina pulou da cadeira e atirou-se nos braços de Tereza, agarrando-se com força a um de seus braços.
Os lábios de Tereza tremeram levemente. Sem conseguir pronunciar uma palavra, sentia apenas seu coração se contrair em espasmos dolorosos.
— Mamãe, foi porque eu não me comportei direito? Ou porque não comi a minha comida toda? — perguntou Delfina com a voz abafada contra o peito da mãe.
Sentindo como se alguém estivesse esmagando seu coração, Tereza respondeu em voz baixa: — Delfina, você se comportou muito bem. Isso não tem nada a ver com você.
— Não é verdade. A vovó disse que, se eu não fosse uma menina boazinha, o papai e a mamãe iriam me abandonar.
— O quê? — Ao ouvir aquela frase, Tereza sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Chocada, olhou atônita para a filha e, fazendo um esforço tremendo para manter a voz calma, perguntou: — A vovó realmente disse isso?
— Uhum — Delfina assentiu com a cabeça.
Naquele instante, a raiva de Tereza foi tão intensa que fez todos os seus órgãos doerem. Pelas costas dela, sua sogra havia tido a coragem de dizer algo tão cruel para uma criança. Será que a mulher não sabia que a menina sofria de insegurança desde pequena? Ela precisava de muito mais validação e carinho do que as outras crianças.
Ao pensar naquilo, Tereza ficou ainda mais convicta. Com o divórcio, ela levaria a filha consigo de qualquer jeito.
Era inaceitável permitir que ela crescesse naquele ambiente tóxico.


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