O silêncio que se seguiu à saída do restaurante era denso, carregado pela umidade típica das noites paulistanas e pelo peso de tudo o que fora dito — e do muito que fora silenciado — durante o jantar. Helena caminhava em direção à área de vallet, mas antes que pudesse entregar seu ticket, sentiu a mão de Caio envolver seu pulso. Não era um puxão agressivo, mas um toque firme, quente, que carregava uma urgência que ele não conseguira imprimir em suas palavras de sedução barata. Ela parou, a respiração subitamente curta, e virou-se para encará-lo sob a luz amarelada dos postes de ferro fundido.
Ali, longe da mesa posta e do teatro corporativo, a máscara de Caio Moretti parecia finalmente ter sofrido uma rachadura real. Seus olhos não buscavam o domínio, mas algo que beirava o desespero de ser compreendido. Por um segundo, Helena viu o menino da biblioteca, o homem que construíra um império para não ser abandonado, e aquela centelha de vulnerabilidade a atingiu com mais força do que qualquer estratégia de cerco. Ela sentiu sua própria guarda baixar, os ombros relaxarem e uma curiosidade perigosa florescer em seu peito. Era o limite do desejo, aquele ponto sem retorno onde a razão começa a se dissolver na química do momento.
— Helena — a voz dele saiu rouca, despida de sarcasmo. — Pare de lutar só por um segundo. Olhe para nós. Você sabe que isso não é sobre empresas. Nunca foi apenas sobre a DuarteTech.
Ele deu um passo para dentro do espaço dela, diminuindo a distância até que o calor de seus corpos se misturasse no ar frio da noite. A mão dele subiu do pulso para o rosto dela, o polegar traçando a linha da mandíbula com uma delicadeza que Helena não sabia que ele possuía. O toque era um convite elétrico, um rastro de fogo que despertava instintos que ela passara semanas tentando suprimir. Ela viu os olhos dele se fixarem em seus lábios, e o mundo ao redor — o barulho do trânsito na avenida próxima, o murmúrio de outros clientes saindo do restaurante — desapareceu. Houve uma inclinação, um movimento quase imperceptível de Caio em direção ao beijo que parecia o desfecho inevitável de semanas de colisão.
No último milésimo de segundo, quando a respiração dele já se misturava à dela, o instinto de preservação de Helena gritou. Não foi um medo físico, mas uma clareza absoluta sobre o que aquele beijo significaria. Para Caio, o beijo não seria um encontro de almas, mas a assinatura de um contrato de posse. Seria a prova de que, no final, ele conseguira o que queria: dobrar a sua vontade.
Com um movimento suave, mas inflexível, ela virou o rosto, e os lábios de Caio encontraram apenas a pele fria de sua bochecha. O silêncio que se seguiu foi cortante. Helena afastou-se, recuperando o controle de seus membros e de sua postura, enquanto Caio permanecia parado, o braço ainda suspenso no ar, o rosto marcado por uma mistura de choque e humilhação.
— Não — disse ela, e a palavra foi como um golpe seco de martelo sobre o mármore.
— Helena... — ele começou, a voz agora carregada de uma frustração mal contida.
— Não, Caio. Não tente transformar isso em um clichê de romance onde a mocinha se rende ao poder do herói problemático — ela o encarou, os olhos castanhos agora limpos de qualquer névoa de desejo, brilhando com uma resolução diamantina. — Você quase me convenceu ali por um momento. Quase me fez acreditar que havia algo humano por trás desse seu império. Mas você não consegue evitar, não é? No momento em que você sente uma conexão, a sua única reação é tentar marcar território.
— Eu não estou tentando marcar território — rebateu ele, fechando as mãos em punhos ao lado do corpo. — Eu estou tentando chegar até você.


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