A sede da DuarteTech, em horários de crise, transformava-se em um bunker silencioso onde o único som permitido era o zumbido constante dos servidores e o clique metódico das teclas de Helena. Ela não era apenas uma CEO com visão estratégica; no fundo, sob as camadas de seda e a postura de liderança, ela continuava sendo a programadora brilhante que conseguia ver padrões onde outros viam apenas ruído. Naquela noite, enquanto a cidade de São Paulo dormia sob uma névoa espessa, Helena estava mergulhada nas entranhas digitais do Grupo Moretti, cavando um túnel de dados que a levaria ao cerne das irregularidades que ameaçavam sua empresa.
Ela não estava interessada em espionagem industrial barata. O que Helena buscava era o rastro de migalhas deixado pelas transações fantasmas que Ricardo descobrira. Usando uma ferramenta de análise forense que ela mesma desenvolvera — apelidada ironicamente de Lanterna —, Helena começou a cruzar os fluxos financeiros da DuarteTech com os registros públicos e vazamentos anônimos do império de Caio. Se o objetivo era incriminá-la, os dados teriam que refletir uma conexão que, na prática, nunca existira.
À medida que os gráficos de dispersão se formavam na tela, a expressão de Helena mudou de indignação para uma profunda perplexidade. Ela esperava encontrar as impressões digitais de Caio executando um massacre financeiro meticuloso. Em vez disso, o que a Lanterna revelava era uma estrutura de governança fractal: por fora, a Moretti Capital exibia a ordem impecável que Caio ostentava em suas reuniões; mas por baixo da superfície, havia uma rede de subsidiárias de terceiro e quarto escalão operando em um regime de autonomia que beirava a anarquia.
— Ricardo, venha olhar isso — chamou ela, sem tirar os olhos do monitor principal.
O diretor financeiro, que dormitara no sofá do escritório, aproximou-se ajustando os óculos. Ele observou as linhas de conexão que Helena estava destacando.
— São as mesmas empresas de fachada que apareceram nos nossos extratos — notou Ricardo, a voz carregada de fadiga. — Mas veja a origem das ordens de transferência. Elas não saem do terminal da presidência. Elas estão vindo de um cluster de servidores localizado em uma unidade de logística em Santos. O Porto de Santos.
— Exatamente — Helena ampliou o nó de dados. — As ordens de pagamento, as falsificações de recebíveis e o descaminho de componentes estão sendo geridos por uma central que usa a assinatura digital do Grupo Moretti, mas as chaves de criptografia são delegadas. Caio delegou o controle dessa unidade para o setor de Operações Especiais e Parcerias Estratégicas.
— Isso é o setor do André, o braço direito dele — sussurrou Ricardo.


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