Wilson não via problema algum naquilo; pelo contrário, observar o constrangimento de Renata o fazia sorrir por dentro. Não resistiu a aproximar-se e provocá-la:
— Tão tímida... Como vai ser quando chegarmos em casa?
Eles estavam tão próximos que suas respirações se misturavam, quase como se estivessem se beijando. O rosto de Renata ardeu. Ela deu-lhe um leve tapinha e ralhou suavemente:
— Wilson! Eu vou para a minha própria casa!
Wilson soltou uma gargalhada genuína, beliscou levemente a bochecha corada da mulher, carregando-a até os portões e seguindo em direção ao Bentley estacionado na calçada, enquanto respondia:
— A minha casa é a sua casa.
Aquela frase dita sem pretensão encheu o coração de Renata, pois ainda guardava vívida a lembrança de quando, num passado gélido, ele havia enfatizado:
"Esta é a minha casa."
Agora, ele estava diferente.
Renata o encarou com os olhos levemente marejados. Abraçou-o apertado, aconchegando sua bochecha alva nos ombros firmes de Wilson, com um toque de relutância ao se separarem...
Ambos entraram no carro e partiram.
Nem perceberam o Maybach parado a certa distância dali.
Dentro do carro.
Cristiano acompanhou cada interação terna entre eles, o corpo imerso nas sombras. A fraca iluminação externa delineava o contorno rígido de seu rosto, conferindo-lhe um ar profundamente solitário.
Ele permaneceu ali, letárgico, e somente quando o outro veículo desapareceu, voltou a se mover. Apenas para abaixar a cabeça, tirar um maço do bolso e tentar acender um cigarro. Porém, os dedos longos tremiam a ponto de não conseguirem segurá-lo direito, e precisou de diversas tentativas no isqueiro para enfim acendê-lo...
Um ínfimo clarão alumiou os olhos injetados.
Mesmo para um observador alheio como Caio Faria, a cena doía de se ver, levando-o a perguntar impulsivamente:
— Sr. Jardim, ela tirou as conclusões erradas. O senhor não quer esclarecer os fatos com ela?
Cristiano absorveu uma tragada densa e, após alguns segundos, replicou rudemente:
— Explicar o quê?
A pergunta interrompeu os pensamentos de Caio Faria.
Cristiano decretou:
— De hoje em diante, considere isso como se nunca tivesse ocorrido, e nem ouse procurar por ela para dar explicações.
Apanhado de surpresa, preparava-se para inquirir a motivação daquilo.
Contudo, o chefe saltou para outra pauta:
— E sobre os fatos de três anos atrás? Como ela passou de Sulina para o Setor Norte? Por qual motivo seus pais pereceram? Teve participação da família Jardim?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Três Anos de Mentira, Três Dias para Partir