Sendo tão astuto como era, como Cristiano não perceberia que ela estava tentando expulsá-lo?
Mas ele também podia ver que ela estava fazendo aquilo por boa intenção, com medo de que ele machucasse Renata.
Isso era evidente, considerando os cuidados e o amor que ela havia dedicado a Renata ao longo dos últimos anos.
Ela não era como Sérgio Viana.
Os olhos de Cristiano escureceram. Quando ela estava prestes a dizer mais alguma coisa, ele murmurou.
— Não se preocupe, eu não vou machucar a Renata.
Soraia ficou perplexa.
Chegado a esse ponto, não havia nada a esconder. Cristiano disse abertamente.
— É como você pensava, eu e a Renata já nos conhecíamos antes e, inclusive, tínhamos sentimentos profundos um pelo outro. A razão pela qual ela não me reconhece agora é porque algo ruim aconteceu e ela perdeu a memória. Mais tarde, pensarei em uma forma de ajudá-la a recuperá-la.
Soraia arregalou os olhos em estado de choque e olhou para ele com incredulidade.
— V-vocês, como isso é possível? Eu não acredito...
Os olhos escuros de Cristiano pareciam infinitos. Ele abriu levemente o colarinho e puxou o cordão prateado, colocando o pingente na palma da mão. O pingente era, exatamente, um anel.
— Este anel, você já deve ter visto com a Renata. Ela o comprou quando estávamos juntos, anos atrás.
Diante disso, Soraia ficou completamente sem palavras.
Ela, de fato, já havia visto aquele anel com Renata. No entanto, devido a vários fatores, ela mesma a ajudou a tirá-lo e o guardou.
Ela ainda se lembrava de quando esteve internada com um machucado no pé. Ele, de alguma forma, havia pego o anel de Sérgio Viana e vindo lhe pedir explicações. Ela ficou aterrorizada na época e arrumou uma desculpa esfarrapada.
Ela não esperava que ele e Renata tivessem um relacionamento tão significativo.
Soraia concordou de forma mecânica e sussurrou.
— Então ela perdeu a memória... Não me admira que tivesse uma postura tão refinada e fosse tão brilhante. Ela não parecia vir de uma família comum...
Cristiano ajeitou o colarinho e de repente também ficou em silêncio. Tê-la perdido por três anos era uma dor eterna em seu coração.
Soraia fechou os olhos, esfregou as pálpebras com as mãos e, quando falou, sua voz soava um tanto rouca.
— Sendo assim, confio no Sr. Jardim para ajudá-la a recuperar a memória no futuro. Ela é realmente uma garota maravilhosa, e não merece ser apagada aqui. Ela deve conhecer um mundo muito maior, e também deveria... voltar para o mundo ao qual ela pertence.
A garganta de Cristiano falhou um pouco.
— Eu ajudarei...
— No futuro, se houver qualquer problema que não possa resolver, também pode me ligar. Eu farei o possível para ajudar. Obrigado por ter cuidado dela por mim durante esses anos.
Os olhos de Soraia ficaram cheios de lágrimas, mas ela acenou com a mão.
— Eu não preciso de nada. Apenas cuide bem dela... Hum, eu vou indo. Volto para vê-la à noite.
Sem querer atrapalhar os dois, ela saiu apressada. Ao dar as costas, não conseguiu mais segurar o choro, e as lágrimas caíram. Afinal, ela cuidou dela como se fosse uma irmã de sangue por anos, não queria se separar!
Cristiano a observou se afastar. Após um momento de silêncio, abriu a porta do quarto e entrou. Ao ver a figura deitada na cama, com o rostinho pálido, perdida em seus pensamentos, seu coração amoleceu. Ele apertou a maçaneta da porta com um pouco mais de força.
Renata estava refletindo sobre a sua partida, bem como sobre a ideia de expor publicamente os escândalos de Wilson e Sabrina, e estava um tanto distante.
Ao escutar, de repente, a porta se abrir, ela voltou à realidade e olhou para a porta. Quando viu que era Cristiano, seu coração bateu mais forte e, instintivamente, tentou se apoiar para levantar.
— Sr. Jardim...
O coração de Cristiano apertou. Ele se adiantou rapidamente para segurá-la pelos ombros e ajudá-la a deitar novamente.
— Não precisa se levantar, deite-se e descanse. Eu só vim te ver... Já vou embora.
Ao sentir o calor nos ombros, Renata umedeceu os lábios, sentindo-se um tanto envergonhada, e obedeceu.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Três Anos de Mentira, Três Dias para Partir