"Tatiana"
O som do bipe eletrônico do meu crachá batendo contra a catraca pareceu mais alto do que realmente era, ecoando pelo hall de entrada da Torre Montenegro, ainda completamente calmo na manhã de quinta feira. Eu estava chegando ao trabalho com meia hora de antecedência para encontrar o mínimo de pessoas possíveis, já que eu continuava indo para o trabalho com roupas esportivas, afinal, eu ainda esperava que o Murilo se desse conta de que eu precisava do uniforme. Quer dizer, eu não precisava mais, mas ele não precisava saber disso.
Assim, que entrei na sala dele, eu arranquei o moletom enorme que estava usando sobre o top e a legging vermelho fogo que eu exibiria para o meu chefe hoje. Eu respirei fundo, a sala tinha o cheiro do perfume caro que ele usava, agradável, masculino e viciante. E eu estava ficando louca!
- Você está chateada com ele, Tatiana! Foco! Mantenha o Dr. Dornelles longe. - Eu murmurei para mim mesma e olhei em volta.
As coisas do Newton ainda estavam espalhadas pela sala. Se pelo menos tivesse dado certo e ele tivesse ficado irritado, a essa hora eu já estaria de volta na recepção. Mas não, o Newton tinha que dar o seu ataque de fofura e conquistar o inimigo, mandando o meu plano de irritar o chefe por água abaixo. Eu caminhei até os potinhos de água e ração do Newton, eles estavam perto da porta e eu me curvei para pegá-los.
- Santa mãe de Deus! Eu vou queimar no fogo do inferno hoje. - O Murilo balbuciou parecendo nervoso.
Ele abriu a porta no momento em que eu me curvei, ficando com o meu traseiro empinado na direção da porta da sala. Ele provavelmente estava infeliz por ter dado de cara com a minha bunda para cima.
Eu me levantei depressa e me virei para a porta. Ele estava parado lá, com os olhos vidrados como se ainda olhasse a minha bunda. Os olhos dele subiram pelas minhas pernas, pararam por mais de três segundos no meu piercing, que eu havia trocado por uma borboleta bem brilhante. Ele subiu o olhar e parou novamente no meu decote em vê, por mais de três segundos e quando enfim olhou para o meu rosto, bem nos meus olhos, exalou pesadamente e bateu a porta, nos isolando do resto do escritório.
- Você está me castigando, Tatiana... eu já entendi. Eu só não entendi por que. - Ele falou baixo, sem humor e deu um passo em minha direção.
Eu dei um passo atrás e me encostei na parede, completamente muda. Então ele deu mais um passo, invadindo o meu espaço pessoal, perto o suficiente para que eu sentisse o calor do seu corpo, o seu hálito fresco e a sua respiração roçando a minha pele. Mas não perto o suficiente para me tocar. Meu coração estava batendo loucamente no meu peito e na minha cabeça eu tentava prever o que ele faria. Eu podia jurar que ele me arrastaria para fora da empresa.
- Qualquer uma já teria recebido uma advertência, Tatiana. - Ele sibilou, os olhos brilhando com algo que eu não sabia o que era. - Qualquer uma eu já teria arrastado até o recursos humanos e feito assinar a porra de uma declaração de consentimento. - Ele inspirou profundamente e fechou os olhos. - Mas é você. E eu sei que... - Ele parou, antes de terminar a frase ele abriu os olhos. - A gente se dá bem, Tati. Bem demais. E eu não gosto do jeito que estamos. Sinto falta das nossas conversas. Das suas risadas na minha cozinha. Vamos acabar com isso. - Ele pediu e eu quase cedi.
Mas ele precisava entender que agora, ele era o chefem as coisas haviam mudado e foi ele quem as fez mudar, e que a falta de atenção dele com os meus sentimentos tinha me magoado. Eu não abaixaria a guarda antes que ele aprendesse que amigos se preocupam com o sentimento do outro. Eu coloquei a mão no peito dele e o afastei. Eu não sabia o que responder, eu também sentia falta da nossa amizade e do jeito fácil e despreocupado dele. No entanto, eu precisava impor distância antes que fosse tarde demais. Eu me afastei e fui me sentar em minha mesa, em silêncio.
- Onde está o Newtinho? - Ele perguntou se virando para mim, tentando fingir normalidade.
- Bom dia, Dr. Dornelles. O nome do meu cachorro é Newton, Newton Santana. E ele está em casa. - Eu respondi tentando fingir profissionalismo.
- Ele deveria estar aqui, trabalhando. Ele é um membro importante das Indústrias Montenegro agora. - Ele declarou com um sorriso desconfiado.
- Ele não pode, ele tem a creche. - Eu resmunguei e ele ampliou o sorriso.
- Mas ele não precisa ir para a creche todos os dias. - Ele falou enquanto caminhava até a sua mesa, se sentou calmamente e virou a cadeira para me encarar.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Último Desejo: a dançarina e o bilionário terminal