Juliana Bezerra
Eu acordei com o barulho insistente do meu celular vibrando na cômoda.
Era o meu despertador das seis.
Mais um dia de trabalho na escola… ou pelo menos era o que eu esperava.
Me espreguicei devagar, tentando não fazer barulho, mas antes que eu pudesse levantar, senti uma mão pesada puxando meu braço de volta.
— Vai levantar pra onde? a voz do André cortou o ar, rouca e irritada. — Ainda nem falei com você.
Engoli seco. A claridade fraca da manhã entrava pela fresta da cortina, iluminando só metade do quarto.
Respirei fundo.
— Eu vou trabalhar, André. Tenho aula às oito… você sabe respondi baixo, tentando manter a calma.
Ele se levantou de repente, me prensando contra a parede fria ao lado da cama. O choque me fez perder o ar.
— Trabalhar? Trabalhar pra quê, Juliana? ele aproximou o rosto do meu, os olhos escuros queimando de raiva. — Que homem é esse que deixa a mulher sair de casa pra ficar dando atenção pra criança dos outros?
— É meu emprego… sussurrei, desviando o olhar.
Ele segurou meu queixo com força, me obrigando a encará-lo.
— Eu não tenho mulher pra sair por aí, não.
O tom dele era baixo e perigoso.
— Você fica. Hoje você fica. Tá entendido?
Meu coração martelava dentro do peito. Não era a primeira vez que ele fazia isso… mas cada vez parecia pior.
— André… eu preciso ir. Eu dependo desse salário.
Ele riu. Mas não era um riso de verdade, era um som frio, de deboche.
— Depende de mim. Não de emprego nenhum.
Apertei os lábios. A verdade é que eu já não dependia dele. Dependia da minha coragem para ir embora.
E ela estava começando a surgir, mesmo que aos pedaços.
— Eu vou. repeti, mais firme do que esperava.
Ele deu um passo rápido e empurrou a porta com a mão, bloqueando minha saída.
— Você não vai lugar nenhum, Juliana.
Por um instante, senti aquele velho medo tentar me dominar.
Mas algo dentro de mim… mudou.
Talvez fosse o cansaço. Talvez fosse a vontade de viver.
— André, sai da minha frente. Agora.
Ele me encarou como se eu tivesse acabado de desafiar um rei.
Tentei passar por ele, mas André foi mais rápido. Arrancou a chave da porta, girou a fechadura e guardou no bolso da bermuda.
— Pronto. Resolvido. Agora você não sai mais. disse com aquela frieza que sempre me arrepiava.
— André, por favor… minha voz falhou. — Eu preciso trabalhar.
Ele se aproximou, tão perto que eu pude sentir o cheiro de álcool da noite anterior.
— Já falei que você não vai. Mulher minha não sai de casa pra trabalhar.
Os olhos dele passearam pelo meu rosto, como se tivesse orgulho da minha fraqueza.
— E para de me desafiar, Juliana. Você não é ninguém longe de mim.
Ele pegou minha mochila e a jogou no chão.
— Eu volto à noite.
Antes de sair, lançou o olhar que eu mais temia. — Tenta sair daqui… se conseguir.
Outra vida.
Outra chance.
Mas o medo veio logo em seguida.
“Kari… eu não sei falar inglês. Como eu vou viver aí?”
A resposta dela veio firme, decidida como ela sempre foi.
Karina:
Aqui você aprende, Ju. Eu te ensino, eu te ajudo, eu te protejo.
Mas você precisa vir. Ou esse homem ainda vai te matar.
Outra mensagem:
Karina:
Seu olho está roxo porque ele te machucou.
Mas você é linda, inteligente, capaz. Você não nasceu pra viver assim.
Eu tô aqui. Não solto sua mão.
Chorei. Não de tristeza…
Mas por sentir, pela primeira vez em muito tempo, que alguém realmente se importava.
Olhei para a porta trancada, para minha mochila caída no chão, para o meu reflexo machucado na janela…
E então senti algo nascer dentro de mim:
a vontade de ir embora. De verdade.
A vontade de sobreviver.

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