GISELE NARRANDO:
Duda mexia no celular com a naturalidade de quem falava sobre o tempo, enquanto eu me ocupava em preparar sua piña colada, em silêncio. As palavras dela me incomodavam, me deixavam inquieta, mas mantive o foco no que estava fazendo.
— Você não ficou chateada, né? — ela perguntou, levantando o olhar, largando o celular e me encarando.
— Não... Claro que não. Eu e seu irmão nunca tivemos nada, exceto uma noite... — respondi, tentando parecer despreocupada, mas sentindo um nó na garganta enquanto entregava a bebida para ela.
Duda tomou um gole no canudo, me analisando com aquele olhar curioso e sagaz.
— Ah, mas vai saber... Eu sei que você é inteligente demais para gostar de um idiota como o meu irmão, mas ele é todo bonitão, charmoso... Sei que é fácil se iludir — disse ela, como se estivesse desvendando um segredo.
Soltei um suspiro discreto e dei de ombros enquanto atendia outro cliente.
— Eu não tenho tempo para ilusões, Duda — respondi, evitando o assunto.
Ela riu, como se tivesse descoberto algo importante.
— Gisa, não acredito... — Ela disse, num tom de mistério.
— O que foi? — perguntei, sem entender.
— Você gosta do meu irmão... — Duda afirmou, me olhando diretamente nos olhos.
Senti minhas bochechas esquentarem na hora.
— Óbvio que não! Ficou louca? — retruquei, irritada com o tom alto que ela usava.
— Não, eu tenho certeza que você gosta... Suas bochechas estão vermelhas — ela insistiu, deixando-me ainda mais desconfortável.
— Dá pra você parar de falar alto? — repreendi enquanto cortava algumas frutas.
— Relaxa, a música está alta, ninguém está me ouvindo — Duda disse despreocupada.
— Eu estou — Jessica sorriu, se aproximando para pegar uma garrafa no balcão.
— Eu disse que você está falando alto! — repliquei para Duda, que apenas sorriu enquanto tomava mais um gole da piña colada.
— Gisa, não muda de assunto. Você gosta do meu irmão, ai meu Deus, ele tem que saber disso, sério… — Duda disse, provocando.
— Não tem, não! E você vai me prometer que não vai falar nada pra ninguém, nem pra sua mãe. Duda, por favor... Eu não sei direito o que eu sinto — pedi, tentando ser séria e firme, olhando nos olhos dela.
— Hmmm, você está confusa. Tá bom, relaxa. Eu não vou contar nada. Mas depois quero saber mais sobre isso... — Duda disse, com um sorriso travesso no rosto.
— Você é terrível, Duda — comentei, sorrindo, mas ainda irritada.
— Só um pouquinho, vai — ela respondeu, piscando. — Quero outra piña colada, essa aqui foi como água. Você parece que nem está colocando álcool.
— Eu não vou fazer mais forte. Você é minha motorista essa noite, então tome água, que é melhor — entreguei uma garrafa de água gelada para ela.
— Cara, você é pior que a minha mãe — Duda disse com o tom de uma criança birrenta, me fazendo sorrir.
Por mais travessa e insistente que fosse, havia algo reconfortante em tê-la por perto. Ela sabia como mexer comigo, mas também sabia como trazer leveza para o meu dia, e naquele momento, eu precisava disso.
Depois de um longo turno no bar, estava aliviada ao sair finalmente, mas meu cansaço só não era maior do que a insistência de Duda, que estava ao meu lado dirigindo. O rádio tocava uma música animada, e ela balançava a cabeça no ritmo, mesmo sendo quatro e meia da manhã.
— Gisa, bora sair? — Duda perguntou, animada.
Revirei os olhos e soltei uma risadinha cansada.
Assim que chegamos, já eram quase cinco da manhã. Entramos silenciosamente para não acordar ninguém. Fomos direto para a cozinha, e Duda começou a procurar algo para comer.
— Acho que vou fazer um sanduíche. Tá com fome? — ela perguntou, abrindo a geladeira.
— Morrendo — respondi, me sentando à mesa enquanto ela pegava os ingredientes.
Ela montou os sanduíches rapidinho, e nos sentamos para comer juntas. Duda estava animada, falando dos planos para a noite que eu nem sabia se realmente iria seguir. Fazia tanto tempo que eu não saía para curtir... Na verdade, me dei conta de que nunca tinha feito isso com uma amiga. No máximo, curtia alguma festa de família quando meus pais eram vivos, ou bebia um pouco com o Breno na praia. Nada comparado a sair para uma balada com alguém como a Duda.
— Você tá com essa cara de quem tá pensando demais — Duda riu, mordendo seu sanduíche.
— Tô só... imaginando como vai ser estranho sair assim — confessei, rindo de leve.
— Estranho por quê? A gente vai se divertir, você vai ver. Vamos relaxar e curtir essa noite, faz tanto tempo que não saio no México, vai ser incrível — Ela piscou para mim, empolgada.
— Vamos ver... — murmurei, incerta.
Depois de comer, subimos juntas as escadas, já sentindo o peso do sono. O quarto de Duda ficava bem perto do meu, e paramos na porta dela para nos despedir.
— Então, tá combinado? Hoje à noite? — ela perguntou, com aquele sorriso insistente.
— Vou falar com sua mãe primeiro, não se esqueça — respondi, rindo e já imaginando a reação dela caso eu dissesse que não.
— Tá bom, tá bom. Boa noite, Gisa. Descansa, porque hoje à noite... vai ser épico! — Ela me deu um beijo no rosto e entrou no quarto, já rindo sozinha.
Entrei no meu quarto exausta. Mal consegui me trocar antes de me jogar na cama. O corpo pedia descanso, mas a mente ainda estava agitada com a ideia de sair para uma balada com Duda.
Isso realmente iria acontecer? Ainda não sabia ao certo.

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