Narrado por Bianca
O tempo parece se arrastar aqui dentro.
Mas, na verdade, ele só... desaparece.
Eu não sei que dia é. Não sei se faz três, quatro ou cinco noites que me tiraram da casa de Khaled com Natália. Não sei quanto tempo faz desde a última vez que dormi de verdade. Ou comi algo que não tivesse gosto de medo.
A única coisa que eu sei com certeza... é que estou viva.
Ainda.
Mas não por muito tempo.
As paredes desse lugar são feitas de cimento grosso e rachado. Tem manchas escuras nos cantos, umidade no teto, e o chão… é frio, duro e manchado. Tudo aqui fede a desespero. E tem um ventilador no alto que gira devagar, como se também estivesse cansado de ver tanta miséria.
Na cela ao lado da minha, tem uma mulher que chora o dia inteiro.
Ela fala com alguém que não está ali. Talvez um filho. Talvez um Deus.
Às vezes, ela sussurra:
— Me leva… por favor, me leva primeiro…
Eu a entendo.
Não tem mais futuro aqui.
Só espera.
E eu estou esperando.
Esperando eles voltarem.
Esperando abrirem aquela porta pesada e falarem: “Você. Agora.”
Foi assim com Natália.
Lembro de quando vieram buscar minha irmã. Dois homens grandes, vestidos de preto, com armas penduradas nas laterais como se fossem extensão do corpo. Ela estava dormindo no chão, encostada em mim. Acordou assustada com o barulho da tranca.
— Natália Almeida. — disse um deles. — Levanta.
Ela tentou ficar firme. Tentou não mostrar medo.
— Minha irmã vem comigo. — ela tentou dizer, como se ainda fosse uma das meninas mimadas da cobertura da zona sul.
— Não. — o homem respondeu. — Só você.
Eu me levantei de impulso, gritei, agarrei o braço dela.
— Não leva ela! Pelo amor de Deus, não!
Fui empurrada com tanta força que caí contra a parede.
Natália me olhou antes de ser levada.
E aquele olhar…
Não era de medo.
Era de culpa.
Como se ela tivesse percebido, tarde demais, que tudo o que fizemos com Lara tinha se virado contra nós.
E então, a porta bateu.
E eu nunca mais vi minha irmã.
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Desde então, a cela ficou mais fria. Mais vazia. Mais mortal.
O medo é um bicho. Ele cresce no escuro. Se alimenta da sua fraqueza. E quando você acha que não pode piorar, ele rosna no seu ouvido.
Toda noite, alguém é levada.
Toda noite, ouço passos. Ouço gritos.
E depois… só silêncio.
Hoje, acordei com o som do martelo.
Mesmo sem estar lá fora, eu ouvi.


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