Narrado por Lara
Fazia tempo que eu não me sentia… leve.
Mesmo nos raros momentos em que Khaled parecia mais calmo, ou quando tentava se aproximar com gestos doces, alguma coisa dentro de mim ficava sempre alerta. Como se eu soubesse que a paz era uma ilusão curta demais.
Mas naquela manhã, eu desci as escadas com uma sensação diferente. Não porque o mundo havia mudado. Mas porque talvez, pela primeira vez, eu estava começando a mudar por dentro.
Foi quando a porta lateral da sala se abriu, e entrou uma mulher coberta por um abaya de um tecido finíssimo, preto como a noite, com fios dourados delicadamente bordados. Os olhos castanhos grandes e marcantes me observaram com gentileza.
Rafiq veio logo atrás dela, sorrindo com aquele ar despreocupado que eu começava a reconhecer como típico dele.
— Lara, esta é minha esposa — disse, orgulhoso. — Layla.
Ela se aproximou com passos elegantes e me cumprimentou com um beijo no rosto.
— Salam aleikum. É um prazer conhecê-la. Rafiq fala de você com muito carinho.
— O prazer é meu, Layla. Fico feliz em finalmente conhecer alguém… — hesitei — ...do mundo real.
Ela sorriu.
— Entendo perfeitamente.
Ficamos em silêncio por um instante. Depois, Rafiq se despediu, dizendo que iria conversar com Khaled no escritório. Layla me convidou para sentar na varanda, onde o chá já estava servido.
— É estranho — ela disse, enquanto se acomodava. — Nós, esposas desses homens poderosos, parecemos ter tudo. Mas no fundo… temos muito pouco.
— Você fala como se estivesse presa.
Ela sorriu de leve, tocando o copo de chá.
— Porque estamos. De formas diferentes. Algumas de ouro, outras de ferro. Mas ainda assim… grades.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, observando a maneira tranquila com que ela falava da própria prisão.
— Eu não esperava ouvir isso de alguém como você.
— Alguém como eu?
— Rica. Bela. Casada com um homem respeitado. Livre para andar por aí.
— Livre? — ela riu. — Lara, eu tive que pedir permissão para vir aqui. Só estou aqui porque o Khaled permitiu. Só posso conversar com você porque ele não vê isso como ameaça. A liberdade que nos dão… é a liberdade que ainda os beneficia.
Aquelas palavras me atravessaram.
— Por que você quis vir?
Ela me olhou com sinceridade.
— Porque Rafiq gosta de você. E porque eu vi o seu olhar nas fotos.
— Aquele olhar de quem sobreviveu a algo… e ainda não teve tempo de se curar.
Baixei o rosto. Quase não consegui disfarçar o nó na garganta.

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