Narrado por Khaled
Era fim de tarde quando Youssef entrou no escritório com o cenho franzido. A postura dele entregava que algo estava fora do lugar antes mesmo que ele abrisse a boca. Fechei o tablet onde revisava os contratos da nova filial em Doha e levantei os olhos lentamente.
— Pode falar. — disse seco.
Youssef hesitou. Isso era raro. Quase nunca vi aquele homem de expressão impenetrável perder o equilíbrio.
— Khaled... recebemos informações de dentro da casa de Hamzah.
Apenas levantei uma sobrancelha.
— Algo relacionado à Natália?
Ele assentiu.
— Aparentemente, sim. Uma das criadas escapou e nos procurou. Disse que Hamzah está recebendo visitas... importantes.
Me recostei na poltrona de couro. Cruzei os braços.
— Quem?
— O Sheikh Abdul Rahman.
O nome caiu como uma âncora no ambiente. Ele era antigo. Antigo e podre. Um dos poucos que ainda usava alianças como troca de carne.
— E o que ele quer com Hamzah?
Youssef me lançou um olhar hesitante.
— Ele não quer Hamzah. Ele quer... Natália.
O sangue me gelou.
— Continue. — exigi.
— A informação é de que ela foi usada como moeda. Primeiro serviu o chá para ele... nua. Depois, foi enviada para passar a noite em seus aposentos. A criada disse que ouviu Hamzah dizer que, se ela agradasse o Sheikh, ele fecharia uma aliança para derrubar você.
A raiva veio. Não como um incêndio, mas como uma lâmina. Precisa. Fria. Mortal.
Levantei-me devagar.
— Estão usando a irmã de Lara como arma.
Youssef assentiu com pesar.
— E estão fazendo isso com o consentimento dela. A criada disse que Natália não chorou, não implorou. Ela obedeceu... e sorriu.
A sensação foi a de levar um tiro no meio do peito e não cair. Um soco sem som.
— Natália quer vingança. — eu sussurrei. — E encontrou um jeito.
Me aproximei da janela. Do alto da propriedade, dava para ver as luzes da cidade começando a acender, uma a uma. Como se não tivessem ideia do que estava prestes a acontecer.
— Temos confirmação? — perguntei, com os olhos fixos no horizonte.
— Ainda não da aliança ser assinada. Mas temos a confirmação de que ela perguntou ao Sheikh se ele tem mais aliados que aceitariam firmar alianças... em troca dela.
Soltei uma risada seca.
Desliguei.
Meu coração estava firme, mas o peito doía. Porque no fundo, por mais que eu soubesse da malícia do mundo, ver aquilo se confirmando... por alguém que compartilha o sangue da mulher que eu amo... isso ainda queimava.
Youssef se aproximou da porta, mas hesitou de novo.
— Senhor...
— Fale.
— Se isso afetar a Lara...
Interrompi com os olhos. Ele calou.
— Não vai afetar. Porque se Natália acha que está ferindo a mim, ela ainda não entendeu com quem está lidando.
Parei por um segundo.
— Mas se ela tentar arranhar a paz de Lara... eu juro, Youssef. Eu juro pelo nome da minha mãe morta... que o mundo vai aprender o significado real de perder tudo.
E ali, no silêncio do escritório, comecei a planejar.
O fim de Hamzah.
A ruína do Sheikh.
E a queda da mulher que escolheu ser inimiga… mesmo sendo sangue da única que eu juraria proteger com a vida.

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