Narrado por Khaled
O carro atravessou os portões do palácio de Abdul Rahman com a lentidão de quem já carrega dentro de si o caos. Eu fui sozinho. Não levei Youssef, não levei segurança armada. Não porque subestimei o velho, mas porque sabia que ele esperava isso: uma demonstração de confiança, ou arrogância. E eu queria que ele não soubesse qual das duas estava encarando.
O calor de Dubai queimava mesmo com o sol já em declínio. A areia se acumulava nos cantos do caminho de pedra branca, e as colunas do palácio tremeluziam ao longe como miragens. Mas não havia miragem nenhuma ali. Havia um homem velho, nojento, que queria brincar de desafiar o inferno.
O empregado me conduziu até um salão aberto, onde o Sheikh fumava um charuto e recebia tâmaras em uma bandeja de ouro. Estava de túnica clara, sentado como um sultão de eras passadas, como se o tempo ainda respondesse a ele.
— Khaled — disse com a voz rouca, sem levantar. — Que surpresa...
Me aproximei com calma, as mãos nas costas, o rosto impassível.
— Sheikh.
Ele me ofereceu uma tâmara. Recusei com um leve movimento de cabeça.
— Não vim comer. Vim conversar.
— Imagino que seja sobre a garota.
— Natália.
— Bonita. Obediente. Cheia de ódio nos olhos. Uma combinação rara.
Sentei à frente dele com elegância silenciosa, observando cada detalhe do rosto dele — o suor escorrendo na lateral, o cheiro forte do óleo que usava no cabelo, os dentes manchados de nicotina. Um homem que se achava rei, mas era só mais um verme decorado.
— Acredito que Hamzah tenha oferecido algo a você.
Ele riu baixo.
— Ele me ofereceu... o corpo de uma mulher. E a cabeça de um homem.
— A minha.
— Sim.
Assenti. Me inclinei devagar, os cotovelos nos joelhos.
— E você aceitou?
Ele mordeu uma tâmara e mastigou com lentidão, saboreando.
— Ainda estou... considerando. A garota é boa. Muito boa. E o ódio que ela tem da sua esposa me serve. Mas Hamzah... é pequeno perto de você. Precisa de ajuda. Você não.
Fiquei em silêncio por dois segundos antes de sorrir, frio.
— Sheikh...
— Hm?
— Eu não vim negociar.
Ele parou de mastigar.
— Como assim?
— Vim te lembrar. Que há décadas, quando você ainda usava espada no cinto, eu já construía impérios com uma caneta. Vim te lembrar que o meu nome, Khaled Al-Mansur, é conhecido em todas as partes do mundo, e não por causa de favores.
Ele não respondeu.
— Eu vim te lembrar que se você colocar as mãos de novo em algo que pertence a mim... você não verá o próximo nascer do sol.
— Isso é uma ameaça?
— Não. — sorri. — É um aviso. Porque ameaça é algo que se faz quando você ainda está disposto a conversar. Eu não estou.
O Sheikh soltou uma risada seca, mas havia hesitação ali.
— E você vai me matar porque dormi com a irmã da sua mulher?
— Não. Você vai morrer porque pensou que podia usar ela contra mim.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Vendida ao Sheik