Narrado por Khaled
O palácio estava silencioso demais.
Nem os corredores longos, nem os pátios internos, nem mesmo o tilintar dos talheres ao longe conseguiam camuflar o cheiro do que estava por vir. Traição, como o sangue, tem aroma próprio. E eu já aprendi a reconhecê-lo à distância.
Sentei no meu escritório, em silêncio. As paredes escuras refletiam o brilho amarelado das luminárias orientais. A vista da cidade pela janela parecia uma tapeçaria de luzes — mas tudo ali fora era falso. Ilusório. O verdadeiro poder não está no que se vê. Está no que se teme.
Desde que deixei o palácio do Sheikh, não parei de pensar no que ouvi. Ele não negou. Ele provocou. Ele brincou com a ideia de me enfrentar. De usar Natália contra mim. De se aliar a Hamzah — um verme disfarçado de senhor de guerra. Não havia mais volta.
Respirei fundo. Me levantei. Caminhei até a estante, peguei uma garrafa de uísque envelhecido e servi uma dose. O líquido queimou na garganta, como eu gostava. Como eu precisava.
Toquei o botão discreto na lateral da mesa.
— Chame Youssef — disse.
Não demorou mais que dois minutos. Ele entrou com o passo firme, como sempre.
— Mandou me chamar, senhor?
— Fecha a porta.
Ele obedeceu.
Fiquei em pé, as mãos atrás das costas, olhando para ele.
— O Sheikh aceitou o corpo de uma mulher para me trair. Aceitou a cabeça de um homem que ainda vive. Você entende o que isso significa?
Youssef assentiu, mas seu olhar pediu mais.
— Significa que ele achou que podia me derrubar com luxúria e ganância. Que a honra dele podia ser negociada entre pernas e alianças. Que a minha mulher, o meu nome, meu império... podiam ser rifados num acordo sujo.
Pousei o copo devagar.
— Ele teve a chance de me respeitar. Preferiu brincar de deus velho.
Youssef manteve a postura ereta.
— Quer que a gente... envie um aviso?
— Não.

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