Narrado por Hamzah
O dia amanheceu com o céu mais limpo que o normal. Nenhuma nuvem, nenhum som além do vento riscando as palmeiras do jardim. Mas eu sabia. Eu sempre soube: os dias mais belos carregam as mensagens mais sombrias.
Estava no escritório principal da mansão, um salão amplo com janelas que se abrem para o deserto, e que até então me oferecia paz. Tinha uma bandeja de tâmaras ao lado, um copo de água de rosas pela metade, e papéis demais para uma manhã só. Lia sobre as exportações de armamentos, os valores prometidos pelos aliados novos e antigos, os nomes que estavam dispostos a me seguir caso Khaled caísse.
Estava ganhando. Ou, pelo menos, era o que parecia.
O barulho de passos apressados me tirou da leitura. Firmes, desesperados. Quando a porta se abriu, o criado mal conseguia respirar.
— Senhor... chegou... algo.
Ergui os olhos sem mover o corpo.
— Algo?
Ele assentiu, a pele pálida, os olhos arregalados. O medo escorria pelo rosto suado.
— Uma caixa... enviada por Khaled. Com... um bilhete. E... — ele hesitou, baixando os olhos. — Conteúdo... humano.
Minhas mãos gelaram.
Levantei com a calma que só o tempo ensina a cultivar, mesmo quando tudo dentro de você grita.
Atravessei o corredor longo da mansão, meus passos firmes ecoando pelos mosaicos. Os criados que estavam pelo caminho se afastavam sem que eu precisasse dizer nada. Eles sabiam. Alguma coisa havia atravessado o portão da propriedade — e não era apenas uma ameaça.
Quando cheguei ao hall principal, lá estava ela.
Uma caixa grande, de madeira escura, com entalhes florais que pareciam dançar à luz do sol que entrava pelas janelas. Em cima, um envelope de seda vermelha. O tecido carregava o perfume que eu já conhecia: especiarias secas e fumaça. Khaled.
Peguei o bilhete. Rasguei a costura fina com o dedo.
> “Eu vou começar a caçar todos os traidores, um por um. O próximo é você.”
Assinado? Não. Khaled não assina. Ele não precisa. O próprio nome é um selo de guerra.
Fechei os olhos por um segundo. Respirei fundo.
— Abram. — ordenei.
Dois homens se aproximaram com luvas e ferramentas pequenas. Um estalo, outro. O cheiro veio primeiro. Forte. Azedo. Um odor que não se confunde com nada no mundo. Carne morta.
A tampa foi erguida.
Dentro, envolta em linho tingido de sangue, estava a cabeça de Sheikh Abdul Rahman.
Os olhos ainda semicerrados. A barba manchada de vermelho escuro. A boca aberta, como se ainda tentasse dizer alguma coisa. Era o fim de uma era — e o começo de outra.
Todos no salão ficaram imóveis. Um deles, o mais jovem, cambaleou para trás. Outro murmurou uma prece, cobrindo a boca.
Eu não me mexi.
Fiquei ali, encarando o troféu de guerra que Khaled me mandara. Um troféu que antes fora um aliado. Um rei decadente, mas ainda útil. Agora, só um crânio de aviso.
— Recolham. — minha voz foi baixa, mas suficiente para fazer os homens saltarem. — Enterrem o velho como ele nunca foi tratado em vida: com honra.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Vendida ao Sheik