Narrado por Natália
O palácio de Hamzah era silencioso nas manhãs quentes de Dubai, como se a própria areia lá fora segurasse o ar. Eu já conhecia aquele ritmo — o ranger suave das portas de madeira, o perfume dos incensos, os passos apressados dos criados tentando parecer invisíveis.
Naquela manhã, eu estava no quarto que ele designou para mim desde o início, um espaço luxuoso demais para uma prisioneira, confortável demais para uma escrava, mas frio como uma cela de ouro. Sentada em frente ao espelho, eu finalizava minha maquiagem com movimentos delicados. Cada traço era uma máscara. Cada batida de pincel, um golpe estratégico.
Eu sabia que hoje algo estava para acontecer. Sentia isso nas minhas costas, como uma sombra encostando devagar.
Foi então que os passos acelerados vieram. Alguém batendo duas vezes antes de empurrar a porta.
— Senhora... — disse o criado com a respiração falha, os olhos arregalados como se tivesse visto um fantasma.
— O que foi agora? — perguntei sem tirar o olhar do espelho. — Esqueceu como se b**e?
Ele hesitou, engoliu seco.
— É o Sheikh Abdul Rahman… Ele... Ele está morto.
Minha mão parou no meio do ar.
— Como?
— Uma caixa chegou agora há pouco. Está na entrada principal. É... a cabeça dele, senhora. Foi enviada diretamente para Hamzah. Com um bilhete.
Lentamente, virei o corpo na direção dele.
— Que bilhete?
— Foi... foi Khaled. Ele mandou avisar que está caçando os traidores um por um. Disse que o próximo... é o senhor Hamzah.
Silêncio.
Fiquei ali, imóvel por alguns segundos. O nome de Khaled girando na minha cabeça. O nome que ela — a queridinha Lara — falava com tanto orgulho. O nome que agora vinha com cheiro de sangue fresco.
Levantei com calma. O robe de seda escorregou sobre meus ombros. Dei dois passos em direção ao criado.
— Onde está Hamzah agora?
— Na sala de reuniões. Ele... ele mandou todos os criados saírem. Está sozinho com a caixa.
Assenti uma única vez.
— Pode sair.
Ele saiu quase tropeçando nos próprios pés, ainda em choque. Já eu… me sentia diferente. Não assustada. Não chocada. Mas acesa por dentro.
Caminhei devagar pelos corredores do palácio, os pés descalços roçando os tapetes importados. Cada passo ecoava nos meus ouvidos como um tambor distante. Quando virei para o salão, vi a caixa. Era grande, escura, feita de madeira de nogueira entalhada — não havia dúvidas de quem tinha mandado aquilo.
Hamzah estava em pé diante dela. O bilhete ainda na mão. A tampa escancarada mostrava o rosto retorcido do Sheikh, com os olhos vidrados, a boca semicerrada. A cabeça repousava envolta em tecido escarlate, e por um segundo eu me perguntei se aquele velho nojento sentiu dor antes de morrer.
Tomara que tenha sentido.
Hamzah virou-se ao perceber minha presença. O olhar dele estava duro, mais do que de costume.
— Ele mandou um recado — disse, com a voz mais baixa do que o normal. — Não só para mim. Para você também.
Fui até a caixa e encarei o rosto morto.
— Use a cabeça dele como moeda — sugeri, voltando a olhar o caixote. — Enterre com honras, espalhe que ele morreu como mártir da causa… E então ofereça minha presença a outro sheikh.
Hamzah virou-se bruscamente.
— Você quer que eu te ofereça a outro homem?
— Quero que me leve até quem pode virar o jogo. — dei de ombros. — Eu já provei que posso ser útil.
Ele me olhou por longos segundos.
— Você é fria.
— Você me comprou. Eu só aprendi a valer meu preço.
Hamzah olhou de novo para a cabeça, depois para mim. Finalmente, assentiu devagar.
— Hoje à noite. Um jantar com Emir Faisal.
— Ele também quer uma aliança?
— Está em dúvida. Mas se ele te quiser…
— Ele vai querer.
Apertei o robe na cintura e saí, sem esperar por mais ordens. Sabia que ele ia mandar costureiras, perfumes, preparar um carro, seguranças. Nada disso importava.
O que importava… era que eu tinha vencido a primeira rodada. E o sangue que caiu naquele salão era só o começo.

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