Narrado por Natália
As janelas estavam abertas, mas o calor não me incomodava. Eu gostava da secura do ar. Da sensação de que o mundo estava sendo queimado aos poucos, igualzinho aos planos que eu vinha traçando desde que pisei neste lugar. Desde que fui entregue como moeda de troca. Desde que me tornei peça.
Agora, eu era jogadora.
Caminhei até a escrivaninha de madeira entalhada que ficava no canto do quarto. O criado já havia deixado a caixa ali, envolta num tecido negro e um laço de cetim vinho. Tão delicada por fora. Tão podre por dentro. Exatamente como Lara.
— Está tudo conforme pedi? — perguntei, sem olhar.
— Sim, senhora. O boneco foi customizado. Está… como a senhora especificou.
Assenti. Meus olhos encontraram o objeto. Um bebê de plástico, com olhos vazios, costuras na boca e o corpo sujo de tinta vermelha. Um trabalho artesanal grotesco. E ainda assim, perfeito.
Abri a tampa e olhei para ele.
— Jajá vai ser o seu, irmãzinha. — sussurrei, sorrindo.
Peguei o bilhete que eu mesma havia escrito com uma caneta dourada, em uma folha perfumada de jasmim. Um toque poético para uma ameaça tão íntima.
"Jajá vai ser o seu, irmãzinha.
Com amor,
Natália."
Fechei a caixa com cuidado, certificando-me de que tudo estava no lugar. Eu queria que Lara sentisse o pavor antes mesmo de entender o que estava vendo. Queria que ela tremesse ao abrir, que o sangue falso grudasse nas mãos dela, que ela ouvisse minha voz mesmo de longe.
— Leve isso agora. Quero que chegue ainda hoje.
— Sim, senhora. Para o endereço de costume?
— Não. Envie para o consultório dela. — sorri com veneno. — Quero que ela receba enquanto estiver fingindo que é alguém normal. Que sinta o pavor invadindo o mundo civilizado que ela tanto tenta proteger.
O criado assentiu e desapareceu porta afora.
Fiquei ali, olhando a sombra da caixa no chão. Era isso. A guerra estava declarada — de verdade. Depois da morte do Sheikh, depois que Khaled decidiu cortar cabeças, depois que Hamzah engoliu a humilhação em silêncio. Agora era minha vez. Não só de responder… mas de abrir a primeira ferida.
Lara ainda achava que eu era apenas uma peça de vingança alheia. Que eu era usada por Hamzah, descartada por Khaled, marcada por Abdul Rahman. Mas o que ela não entendia… é que eu estava viva.
E cada respiração minha agora era pensada pra causar dor.
Meus passos me levaram até o espelho. Me observei com calma. O vestido preto colado ao corpo, a maquiagem leve demais pra parecer inocente, os olhos marcados por algo que nenhuma mulher boa carrega. Eu era tudo o que Lara não conseguia ser.

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