Narrado por Lara
A recepção do consultório estava gelada, mesmo com o calor escaldante do lado de fora. Sentei na poltrona bege com as mãos sobre o ventre, tentando controlar a ansiedade. A médica ainda não tinha me chamado, mas o bebê estava inquieto. Meus dedos roçavam instintivamente a barriga — um carinho que talvez fosse mais pra mim do que pra ele.
Eu precisava respirar. Precisava que os batimentos desacelerassem. A ameaça de Natália ainda ecoava em mim como um sussurro antigo que nunca ia embora. Mas eu achava que hoje seria um dia normal. Eu queria que fosse.
— Senhora Lara? — chamou a assistente com um sorriso simpático. — Pode entrar.
Levantei-me devagar. Sorri em resposta. Estava cansada, mas tentei parecer firme. Eu era uma Rashid, afinal.
A médica me recebeu com gentileza. Conversamos alguns minutos antes de ela começar o exame. Ela passou o gel no meu ventre e ligou o aparelho.
— O bebê está bem — ela disse com serenidade. — Coração forte.
Suspirei aliviada. Era isso o que eu precisava ouvir.
Mal saí do consultório e voltei à recepção, e a funcionária se aproximou com um pacote nos braços.
— Senhora Lara? Chegou isso aqui pra você… um entregador acabou de deixar. Pediu urgência.
Franzi a testa. A caixa era pequena, embrulhada com papel dourado e fita vermelha. Havia um cartão branco pendurado com uma caligrafia elegante.
Peguei com hesitação. O nome escrito em letras cursivas:
Para Lara Almeida Rashid, com amor.
O sangue gelou.
— Onde ele está? — perguntei, a voz vacilando.
— O entregador já saiu — respondeu a mulher.
Meus dedos tremiam. O bebê dentro de mim se mexeu de novo. Fui até a cadeira mais próxima e sentei. As mãos abriram o laço como se estivessem fora do meu controle. O cartão escorregou, e caiu no chão.
Dentro da caixa, um boneco.
De um recém-nascido.
Todo… ensanguentado.
Horrivelmente real.
A pele plástica estava tingida com algo que parecia sangue de verdade. E o rosto… o rosto estava pintado com olhos fechados e a boca entreaberta como se tivesse sido sufocado. Um pedaço de gaze envolvia o pescoço. As perninhas estavam dobradas, com um alfinete cravado no abdômen.
— Meu Deus… — sussurrei.
Uma onda de enjoo me dominou.
Peguei o bilhete que estava dentro da caixa. A caligrafia era inconfundível.
— Está — respondeu a médica que surgira ao lado. — Você só desmaiou. O estresse, talvez. Mas ele está ótimo.
Foi só então que percebi: Khaled estava com o bilhete nas mãos.
O papel amassado, sujo do líquido escuro que escorrera da caixa.
Ele não disse nada. Só olhou pra mim com os olhos tão cheios de ódio que não pareciam humanos.
— Foi ela — sussurrei. — Natália. Ela mandou isso. Um boneco… morto. Disseram que era meu filho.
Ele respirava pesado.
Em silêncio, passou a mão pelos meus cabelos e se levantou. Deu um passo até a caixa, que estava sobre uma mesa. Olhou para o boneco por alguns segundos. Depois, rasgou o papel do bilhete ao meio, com uma calma que me assustou mais do que qualquer grito.
— Fique aqui — ele disse.
— Khaled, o que você vai fazer?
Ele me encarou.
— Eu vou mostrar pra essa desgraçada o que significa brincar com o filho de um leão.
E saiu sem dizer mais nada.

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