Narrado por Khaled
A caixa ainda estava sobre a mesa de vidro no meu escritório quando mandei chamá-los.
O cheiro do embrulho... não era exatamente de sangue, mas do que ele simbolizava: guerra. Guerra fria. Guerra suja. E se tinha algo que eu aprendi nesses anos todos, era que você nunca subestima uma mulher ferida — especialmente quando ela é Natália Almeida Rashid.
Eu estava de pé quando Alberto e Bianca chegaram. Ele entrou com a arrogância de sempre, o rosto vermelho de indignação antes mesmo de saber por quê. Bianca vinha atrás, visivelmente tensa, os olhos evitando contato comigo. Os dois filhos de uma linhagem podre de orgulho e coberta de ouro sujo.
— O que é tão urgente, Khaled? — Alberto disparou, fechando a porta atrás de si.
— Senta. Os dois.
— Eu não vim aqui pra obedecer ordens suas.
— Você vai querer sentar — respondi, seco.
Ele hesitou, mas obedeceu. Bianca também se acomodou sem dizer uma palavra. Peguei o pacote da mesa e o joguei com força diante deles. A caixa de madeira deslizou, parando entre os dois.
— Abram.
— O que é isso? — perguntou Bianca, tensa.
— Abram — repeti, firme.
Alberto soltou um resmungo e puxou a tampa. Foi instantâneo. O cheiro de ferrugem e verniz. O boneco — um bebê de porcelana manchado de tinta vermelha escorrendo pelos olhos, pela boca. Um corte no pescoço. Pendurado no pescoço do brinquedo, um bilhete escrito em letras delicadas:
"Jajá vai ser sua irmãzinha. Com amor, Natália."
Bianca recuou, engolindo o vômito. Alberto ficou imóvel por alguns segundos, encarando o bilhete. Depois se levantou tão abruptamente que a cadeira caiu.
— Que porra é essa?
— Isso — murmurei, com a voz seca — foi entregue hoje no consultório de Lara. Ela desmaiou quando abriu.
O silêncio que veio em seguida não foi de choque. Foi de vergonha. De impotência. E, talvez, de culpa.
Bianca foi a primeira a falar, com a voz embargada:
— Minha irmã está indo longe demais...
— “Sua irmã”? — ri, sem humor. — Agora é irmã? Agora?
— Isso é culpa sua, Khaled — ela rebateu, se levantando. — Você destruiu a vida dela! Você vendeu ela! Vendeu nós duas! Tirou tudo que tínhamos! Você quer o quê? Que ela vire santa?
— Não — respondi, encarando-a. — Eu quero que ela morra antes de matar alguém.
Ela congelou.
— Ela está se prostituindo, Bianca. Para Hamzah. Para os aliados dele. Está usando o corpo como moeda de vingança. E vocês sabem o que é pior? Está boa nisso.

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