Lara
O sol já brilhava forte quando descemos para tomar café. O restaurante do hotel era um espetáculo à parte, com um buffet impecável e uma vista de tirar o fôlego.
Eu deveria estar aproveitando.
Eu deveria estar me sentindo feliz por estar aqui, viajando, experimentando uma cultura nova ao lado do meu marido.
Mas tudo o que eu conseguia pensar era na ligação da madrugada.
As palavras de Khaled ainda ecoavam na minha cabeça como um pesadelo do qual eu não conseguia acordar.
"Mata eles."
Respirei fundo e me forcei a manter a expressão neutra enquanto sentava à mesa. Khaled parecia tranquilo, como se nada tivesse acontecido. Ele serviu uma xícara de café para mim e outra para ele, pegou um pedaço de pão e começou a comer.
Fiz o mesmo, mas minha fome tinha desaparecido.
O silêncio entre nós durou pouco.
O celular dele tocou.
Meu coração acelerou.
Ele tirou o aparelho do bolso e olhou a tela por um segundo antes de atender.
— O que foi agora?
Seu tom de voz estava firme, impaciente.
Apertei os dedos contra a borda da mesa, tentando parecer distraída com meu café.
A voz do outro lado da linha estava baixa demais para que eu entendesse, mas Khaled ficou em silêncio por alguns segundos, ouvindo.
Então, ele fechou os olhos por um breve instante, como se estivesse se segurando para não explodir.
— Você me disse que tinha resolvido isso.
Minha respiração ficou presa.
A conversa de ontem à noite voltava à tona.
Eles estavam falando sobre os mesmos problemas.
— Não resolveu inteiro? — Ele repetiu, a voz carregada de irritação.
Dei um gole no café, tentando disfarçar o fato de que estava prestando atenção.
Mais um momento de silêncio, e então Khaled passou a mão pelo rosto, frustrado.
— Eu vou voltar.
Minha cabeça se ergueu imediatamente, e nossos olhares se encontraram.
Dessa vez, não consegui esconder minha reação.
Minha xícara bateu contra o pires, fazendo um leve barulho.
— O quê? — Minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
Ele me encarou por um momento antes de voltar ao telefone.
— Preparem tudo. Vou pegar um voo ainda hoje.
Desligou sem cerimônia.
Meus dedos apertaram a borda da mesa.
— Você vai voltar?
— Sim. — Ele tomou um gole de café, como se não fosse grande coisa.
Mas era.
A lua de mel estava acabando.
— Por quê? — Cruzei os braços.
— Problemas nos negócios.
Aquilo me fez rir, mas não de um jeito divertido.
— Negócios? — Inclinei a cabeça, estudando a expressão dele. — Do tipo que você resolve dizendo "mata eles"?
Os olhos dele brilharam perigosamente.
Ele largou a xícara e se inclinou na minha direção.
— Lara…
Não me intimidei.
Ainda estava assustada, sim, mas naquele momento, minha raiva era maior.
— O que você faz de verdade, Khaled?
O canto da boca dele se ergueu em um sorriso de lado.
— Eu já disse. Sou empresário.
— Óbvio que estou.
Fechei a mala com um pouco mais de força do que o necessário.
— É a sua lua de mel, Khaled. — Cruzei os braços. — Achei que isso significava algo.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, apenas me encarando.
Depois, caminhou até mim.
Parei no lugar, sentindo meu coração acelerar.
Ele levantou uma das mãos e deslizou os dedos pelo meu rosto, segurando meu queixo.
— Significa, habibti.
O tom baixo e rouco me fez arrepiar.
Mas, antes que eu pudesse responder, ele se afastou, pegou sua mala e foi para a porta.
— Vamos. Nosso voo sai em algumas horas.
Olhei para ele, para sua expressão tranquila, para a maneira como agia como se nada estivesse errado.
E foi ali que percebi.
Khaled sempre fazia as coisas do jeito dele.
E eu teria que aprender a lidar com isso.
Se quisesse sobreviver.
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Horas depois, já estávamos no avião.
A viagem de volta para Dubai foi silenciosa.
Eu não quis conversar.
E Khaled não insistiu.
Passei o voo todo olhando pela janela, observando as nuvens, tentando organizar os pensamentos.
Quando pousamos, o sol já estava se pondo.
E algo me dizia que minha vida, a partir daquele momento, nunca mais seria a mesma.

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