Narrado por Lara
O envelope ainda estava sobre minha cama, como se me provocasse silenciosamente. Passagem de volta. Passaporte. O caminho de fuga que eu tanto desejei durante dias… ali. Fácil. Mas o que me esperava do outro lado?
Peguei o celular. Minhas mãos suavam. Disquei o número do meu pai. Eu precisava ouvir dele. Precisava saber se, de alguma forma, ainda havia espaço para mim naquela casa.
— Alô? — a voz dele soou fria, impaciente.
— É a Lara… pai.
Houve um silêncio incômodo. Um que dizia muito mais do que qualquer palavra.
— O que você quer?
Engoli em seco.
— Eu… recebi meu passaporte de volta. Uma passagem. Queria saber… se o senhor quer que eu volte pra casa. Se as coisas mudaram.
Mais silêncio. Dessa vez, ele soltou uma risada baixa. Sarcástica.
— Mudaram sim. Estamos vivendo bem, graças ao acordo que eu fiz com aquele homem. Vendendo você.
Meu coração despencou.
— Mas pai… eu sou sua filha. Como pode dizer isso?
— Olha, Lara… eu me senti culpado no começo. Mas agora? Eu tenho certeza de que fiz a coisa certa. Você sempre foi diferente. Sempre esteve à margem. E desde que você saiu, tudo ficou mais leve. Bianca e Natália estão ótimas. A casa está em paz. A empresa está voltando a respirar.
— E o melhor pra mim? — perguntei, com a voz falhando. — Isso nunca importou?
— Eu nunca me importei com o melhor pra você. Sempre te culpei pela morte da sua mãe. Eu perdi a mulher que amava por sua causa.
As lágrimas começaram a escorrer, quentes, cortando minhas bochechas.
— Eu sinto muito, minha filha, mas eu nunca vou conseguir te amar. Nunca me perguntei se esse homem te tratava bem ou mal. Quando você expulsou a gente do casamento… eu só tive certeza de que você não faz parte da nossa família. Nem nunca fez. Não volte. Nem pense nisso.
Ele desligou.
E eu… eu só consegui deixar o celular escorregar da minha mão.
Me sentei na beira da cama e chorei. Chorei como nunca chorei antes. Desabei.
Tudo o que eu sempre quis foi ser amada. Mas nem isso eu tinha. Nem da minha família. Nem do mundo.
A porta se entreabriu e a empregada que estava no corredor parou ao me ver naquele estado. Assustada, ela recuou.
—


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