Narrado por Alberto
Eu estava sentado na poltrona da sala, copo de uísque na mão, quando recebi a mensagem. A tela do celular se acendeu com o nome de Khaled, e bastou uma frase para meu corpo inteiro gelar:
"A partir de agora, você não verá mais um centavo meu."
Li mais duas vezes. O copo rangeu na minha mão de tanto que apertei.
O contrato. O investimento. As parcerias. Tudo por causa daquela menina ingrata. Lara.
Soltei o ar com força e joguei o celular no sofá. O som do impacto fez minhas filhas olharem da escada.
— O que foi, pai? — perguntou Nathalia, cruzando os braços. — Que cara é essa?
Bianca veio logo atrás, a expressão desconfiada.
— Não me digam que o Khaled...
— Cortou tudo — falei, com amargura. — Encerrado. Parceria, investimento, confiança. Tudo. Por causa daquela garota.
As duas se entreolharam. Bianca foi a primeira a reagir.
— Isso não pode estar acontecendo!
— Ele ficou contra a gente? — Nathalia perguntou, incrédula. — Por causa da Lara?
— Ela teve uma crise de ansiedade. Foi parar no hospital. E ele culpa a gente. Disse que vai destruir minha empresa. Disse que não quer nem ouvir falar de mim.
— Filho da mãe... — Bianca murmurou.
— Isso não pode acontecer — Nathalia disse, já andando de um lado pro outro. — A gente precisa ir pra Dubai. Falar com ela.
— Falar o quê? — perguntei, seco. — A verdade? Que ela sempre foi um erro? Que nunca fez parte da nossa família?
— Não, né, pai — Bianca disse. — A gente finge. Faz aquela cena básica. Um pouco de choro, umas palavras bonitas e pronto. O importante é que ela volte com esse homem. Ele é nossa única chance de não perder tudo.
— Ela não vai acreditar. Acha que ela é burra?
— Pai — Nathalia interrompeu — você mesmo sempre disse que ela é carente. Que sempre quis ser amada. A gente só tem que fingir que a ama. Se ela achar que tem espaço entre a gente, pode até ficar. E aí… você retoma o controle.
Suspirei.
— Eu não posso ir. Khaled me ameaçou. Se eu colocar os pés naquele país, ele me enterra.
— Então a gente vai — Bianca disse com firmeza. — Eu e a Nathalia.
Olhei para elas. Um pouco de orgulho me bateu no peito. Elas tinham ambição. Sabiam o que fazer.
— Podem ir. Comprem as passagens agora. Vão ainda hoje.
As duas sorriram e subiram correndo para arrumar as malas.
Eu via a mulher que me fazia respirar. E tudo que restou foi aquela menina com os olhos grandes e a boca igual à da mãe.
Ela devia ter morrido. Não Isabel.
— Maldita hora… — sussurrei.
Engoli o resto do uísque e fechei os olhos.
Subitamente, me lembrei de algo que disse no velório. Meus pais tentaram me consolar. Disseram que eu tinha uma filha pra cuidar agora. E eu disse:
"Não tenho. Eu só tenho um motivo diário pra lembrar da morte da Isabel."
Ninguém entendeu. Mas eu entendi. E nunca mudei de ideia.
Agora essa menina estraga minha vida mais uma vez. Coloca tudo a perder.
Mas se as meninas fizerem certo…
Talvez eu ainda tenha salvação.
Porque o que me resta agora… é fé na mentira.
E ódio.
Muito ódio.

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