Narrado por Bianca
O som da mala sendo arrastada pelo piso frio do quarto me irritava. Tudo me irritava. O cheiro do perfume da Nathalia, o tique-taque do relógio, até o jeito como o papai suspirava lá embaixo. Mas o que me irritava de verdade… era a Lara.
Aquela garota sempre foi um estorvo. Sempre se fazia de coitada. A órfã. A rejeitada. Mas agora? Agora ela era a esposa de um dos homens mais ricos do Oriente Médio. E nós? Ficamos pra trás. Sem o dinheiro. Sem o luxo. Sem nada.
Puxei minha nécessaire com força e a joguei dentro da mala.
— Tá pronta? — perguntei, olhando pra Nathalia pelo espelho.
— Falta só o salto dourado. — Ela estava dobrando o último vestido. — Acha que Khaled vai me achar muito chamativa?
Revirei os olhos.
— Acho que ele vai achar qualquer coisa que não seja a Lara uma melhora.
Nathalia riu.
— Você é má.
— Realista. — fechei a mala com um estalo seco. — Vamos fazer isso dar certo.
Descemos juntas. O papai estava sentado na poltrona, com o copo de uísque na mão. Os olhos vermelhos. A barba mal feita.
— Vamos indo. — falei, ajeitando os óculos escuros no rosto. — Não se preocupa, pai. A gente resolve isso.
Ele nos olhou sem dizer nada por alguns segundos. Depois se levantou com dificuldade.
— Façam direito. A Lara pode ser burra, mas não é idiota. Não deixem ela desconfiar.
Nathalia assentiu.
— Vamos fazer ela pensar que a gente ama ela. Que sentimos falta. Que queremos a irmã de volta.
— Não exagera — resmunguei. — Se você chorar, eu não vou conseguir segurar o riso.
Nos despedimos com dois beijos no rosto e saímos.
No caminho para o aeroporto, ficamos em silêncio. Mas não era um silêncio desconfortável. Era um silêncio cheio de planos. Um silêncio afiado.
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A viagem foi longa, mas confortável. Primeira classe, como deveria ser. Quando aterrissamos em Dubai, senti aquele calor seco batendo no rosto como uma promessa. Luxo, ouro, riqueza. Aquela era a nossa oportunidade de ouro. Literalmente.
No hotel, os funcionários nos receberam com flores, toalhas geladas e suco de romã.
— Se Lara recusou isso tudo, ela é mais idiota do que a gente pensava — murmurei, aceitando o suco.
— E ele é muçulmano. Eles podem ter mais de uma esposa.
— Não seria nada mal ser esposa de um sheik cheio de dinheiro. — ela riu.
— Mas ele precisa ver a gente com olhos diferentes. — sentei na beirada da cama. — Se a gente aparecer como irmãs preocupadas, amorosas, ele vai baixar a guarda.
— E aí a gente se infiltra. Primeiro, no coração da Lara. Depois, no do Khaled.
— Se for preciso, eu até finjo que estou apaixonada por ele.
— Finjo? — Nathalia arqueou uma sobrancelha. — Eu já tô. Ele é um gostoso.
Começamos a rir. Uma daquelas risadas cúmplices, que só duas irmãs mal-intencionadas sabem dar.
— Amanhã a gente tenta conversar com a Lara. — falei, pegando o celular. — Hoje a gente estuda o terreno. Quem são os empregados, quem são os seguranças, quem pode ser útil.
— E se ela não quiser conversar?
— Ela vai. Vai querer saber por que a “família” veio atrás dela. Vai acreditar no teatrinho. E a gente puxa ela de volta pro nosso lado.
— Ou… — Nathalia completou, mordendo o lábio — a gente puxa ele pro nosso.
E pela primeira vez, eu não sabia qual dos dois caminhos era mais tentador.

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