Narrado por Khaled
Lara virou de costas para as irmãs como se tivesse encerrado um ciclo inteiro. E de certa forma… ela tinha.
Ela caminhou lentamente pelas escadas, sem dizer uma palavra, e eu fui atrás, em silêncio. A força com que ela se manteve em pé diante delas me encheu de um orgulho estranho — um que queimava no peito.
Mas eu também sabia que não era fácil para ela. Não podia ser.
Quando entramos no quarto, ela foi direto para a varanda. Encostou os braços no parapeito e ficou ali, parada, olhando a cidade como se quisesse se perder entre os prédios. A brisa mexia os cabelos dela, mas ela nem se movia.
Fechei a porta devagar e caminhei até ela.
Esperei um instante, só observando.
Então, os ombros dela começaram a tremer.
Lara levou as mãos ao rosto, mas não conseguiu esconder.
A dor que ela não mostrou lá embaixo finalmente transbordava.
Aproximei-me em silêncio. Encostei no corpo dela e a envolvi por trás, passando os braços pela cintura fina, sentindo sua respiração falhar.
Encostei o rosto no pescoço dela e falei baixo:
— Você foi forte.
Ela não respondeu.
— Mas não precisa ser o tempo todo.
Ela respirou fundo. A voz saiu falhada:
— Eu… eu só queria que alguma parte deles… gostasse de mim. Só uma. Mas nem isso.
— Eu sei.
— Eu me esforcei tanto… a vida inteira. E tudo o que eu recebi foi rejeição. Primeiro do meu pai, depois das minhas irmãs. Era como se eu fosse um erro que não devia ter existido.
— Você nunca foi um erro, Lara.
Ela virou devagar e se aninhou no meu peito. O corpo tremia. As lágrimas desciam quentes, manchando minha camisa, mas eu não me importava. Cada lágrima que ela deixava sair parecia uma gota a menos de peso que ela carregava.
— Eles não me amam. Nunca vão amar.
— E você ainda se importa com isso?
Ela hesitou… e sussurrou:
— Ainda um pouco. Mas tá diminuindo.
Afastei um pouco o rosto dela com a ponta dos dedos.
— Então deixa morrer de vez. Esquece. Mata isso dentro de você. Porque não vale a pena manter viva a esperança em gente que só sabe usar.
Ela assentiu com a cabeça, mas eu sabia que ainda doía.
— E se um dia… você se cansar de mim também?



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