Narrado por Ranya
Era fim de tarde quando percebi o movimento estranho nos portões principais da mansão.
Eu estava no jardim lateral, recolhendo algumas louças da mesa externa, quando dois carros pretos, longos e espelhados demais para serem comuns, entraram lentamente no pátio interno. O motorista de Khaled desceu do primeiro, correu até a porta de trás e a abriu com uma reverência discreta.
E então ele apareceu.
O pai de Khaled.
Eu já tinha ouvido falar dele. Os seguranças sussurravam seu nome com mais medo do que respeito. Diziam que ele era o verdadeiro cérebro da família Rashid — um homem que usava a tradição como arma e o silêncio como sentença de morte.
Meu coração disparou só de vê-lo caminhando com aquele ar de realeza, as mãos cruzadas nas costas, o olhar rígido e inexpressivo.
Não era comum visitas como aquela. E eu sabia que algo importante estava para acontecer.
Como uma sombra, dei a volta pela lateral da mansão e entrei discretamente pela área de serviço. Subi as escadas dos fundos e parei no corredor que levava até o salão privado de Khaled.
As portas estavam semiabertas. E, como sempre, meu corpo foi mais ousado do que minha razão.
Aproximei-me devagar. Silenciosa. Treinada para desaparecer onde quisesse.
E foi ali, com a orelha próxima da madeira maciça, que ouvi as palavras que me fizeram gelar.
— Está na hora de você dar continuidade ao sangue Rashid, Khaled. Não adia mais o inevitável.
A voz era dura. Cortante. Inquestionável.
— Ainda é cedo — respondeu Khaled, com aquele tom sempre calmo, mas que eu já aprendi a identificar como tensão disfarçada.
— Não é cedo — retrucou o pai. — É tarde. Você é o único filho. Não temos sobras. Não temos reservas. Se você falhar, tudo isso morre com você.
Meu coração batia tão alto que eu mal conseguia ouvir as próximas palavras.
— Eu preciso que você engravide sua mulher. E que isso aconteça logo.
Engoli em seco. Levei a mão à boca. Quase deixei escapar um suspiro.
Khaled tentou argumentar. Alegou que Lara ainda estava se adaptando. Mas o pai dele não quis saber. Disse que o conselho já murmurava. Que as famílias vizinhas começavam a questionar. E que um Rashid sem herdeiro era um Rashid vulnerável.
Eu fiquei ali, parada, ouvindo tudo, até que as vozes começaram a se afastar e a porta foi fechada com um estrondo suave.
Voltei correndo para o alojamento. Cada passo ecoava nas paredes como uma contagem regressiva.
Entrei no meu quarto e tranquei a porta.
Sentei na cama, peguei o celular e respirei fundo.
Disquei.
Natália.
Ela atendeu no segundo toque.
— Fala. Tô esperando esse seu retorno há dias.
— Escuta — falei, com a voz ainda embargada. — O pai dele esteve aqui. Hoje. Há menos de uma hora.
— Eu não sei como…
— Dá um jeito, Ranya. A gente tá te pagando bem pra isso. Essa informação é ouro. Se ela engravidar, estamos ferradas. Porque filho é corrente. Filho segura mulher até onde homem nenhum segura.
— Você quer que eu impeça?
— Não. Quero que você descubra. Depois a gente vê como destruir por dentro.
Fechei os olhos. Eu já não sabia mais em que buraco tinha me enfiado.
— Tá bem.
— Ah, e Ranya…
— O quê?
— Obrigada por ser os olhos que ela não vê. Mas cuidado pra ele nunca descobrir.
Ela desligou.
Fiquei com o celular na mão, os dedos suando.
Eu tinha certeza de uma coisa.
Se Khaled desconfiasse que eu estava espionando…
eu não sairia viva dessa casa.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Vendida ao Sheik